domingo, 4 de julho de 2010

O Cemitério e a Capela dos Aflitos - Crônicas da Cidade Plural


A manhã de sábado surge repleta de luminosidade.
Descendo do metrô, chego rapidamente à praça da Liberdade.
Uma bela feirinha japonesa desvia minha atenção por muito tempo.
Depois enfrento um quarteirão pela rua dos Estudantes, em busca do beco dos Aflitos.
Quero fotografar a Capela.
O beco está cheio de automóveis estacionados.
Milagrosamente alguns motoristas manobram e deixam a fachada da Capela livre para as minhas fotografias.
Naquele quarteirão ficava o Cemitério dos Aflitos.
O Cemitério dos Aflitos, criado em 1774 e destinado aos pobres, condenados, indigentes e os não-católicos.
Ocupava uma parte do que seria o bairro da Liberdade, anos depois.
A Capela dos Aflitos, que estou fotografando, foi edificada dentro do Cemitério, em 1779, inaugurada em 27 de junho.
Com a construção do Cemitério da Consolação em 1858, fecharam o Cemitério dos Aflitos.
Entretanto, os poucos registros de transferência de ossadas permitem imaginar que muitas delas ainda permanecem enterradas no local.
Debaixo dos alicerces das casas e dos edifícios, construções erguidas sobre o terreno loteado.
Dizem que nas madrugadas as ruas no entorno do local do antigo cemitério são assombradas pelos espíritos dos que ali foram enterrados.
A Capela dos Aflitos permanece em pé.
No beco dos Aflitos, número 70.
Travessa da rua dos Estudantes, 52.
Ainda rezam missas às segundas feiras, 15h00.
Reza do terço às 13h30.
Termino as fotos e vou saindo, olhado com certa apreensão por umas trinta ou quarenta pessoas sentadas nas soleiras das portas, e desconfiando de uns tipos esquisitos que olham para meu equipamento tão caro!
Certamente não agrado.
Vou saindo de fininho.
Uma última olhada e um detalhe na arquitetura da capela chama minha atenção.
Preparo a câmara fotográfica e volto.
Não percebo uma valeta cavada no cimento da calçada.
O pé falseia e despenco sobre o chão duro, espalhando todo o conteúdo da minha maleta de fotógrafo, que está aberta.
Alguns correm em meu socorro.
Sou levantado, escovado, paparicado...
Os tipos esquisitos aproximam-se e ajudam a procurar os caros assessórios.
Devolvem-me todos eles.
Finalmente, um garotinho magro, olhos encovados, aproxima-se com três tiquetes de metrô:
- O senhor deixou cair...
Uma moça magrinha, funcionária de uma loja da região, preocupa-se:
- Tem certeza de que está bem?
- Estou.
- O que o senhor está fazendo?
- Colhendo material para um Blogue. Dizem que este quarteirão era parte de um cemitério e aquela capela ficava no centro...
- É verdade. Quando construíram este prédio onde eu trabalho e encontraram caixões e ossadas...
- Você ouviu falar dos fantasmas..?.
- Nunca vi, mas conheço muita gente que viu ... saindo tarde da noite do trabalho ...
- Dizem que tem missa no fim da tarde das segundas feiras ali na capela...
-Tem. Eu não vou, porque sou evangélica...
Vou saindo do beco.
Palavras de “estimo melhoras”, “não se machucou?”, “volte para a missa!” vão atapetando de rosas aromáticas o meu caminho.
Beco dos Aflitos!
Larry Coutinho ( foto e texto)

Nossa Senhora da Cabeça - Crônicas da Cidade Plural


Rua Tabatinguera, 104
Juan Alonso de Rivas passeava a sua juventude pobre pela aldeia de Andújar, na Andaluzia, no antigo ano de 1227.
Por ali existia uma sucessão de pequenos aglomerados populacionais que vicejavam à sombra da Sierra Morena.
E na Sierra Morena um altivo pico se elevava sobre a simpática aldeia de Andújar.
Os aldeões o chamavam de Pico da Cabeça.
Então os jovens da aldeia foram para a guerra.
Combater contra os mouros.
Juan Alonso participou dos combates e caiu prisioneiro.
Tentou e conseguiu fugir.
Porém perdeu o braço na agitação que antecedeu a fuga.
Voltou para Andújar, onde conseguiu trabalho como pastor de cabras.
Levava os animais para pastos situados nas encostas do Pico da Cabeça.
Nas langorosas tardes da Andaluzia enquanto sonolento ele tentava vigiar os animais, julgava ouvir uma sineta que o atraia para o alto da encosta.
Finalmente na noite de 12 de agosto a sineta tocou novamente.
Juan Alonso olhou para o alto e viu uma fonte brilhante de luz, provinda de algum lugar próximo ao Pico da Cabeça.
Caminhou em direção à luz e encontrou uma gruta misteriosamente iluminada.
Sobre os rochedos estava bela imagem de Nossa Senhora.
Uma voz feminina suave e bela pediu que ele se deslocasse para a aldeia de Andújar e conclamasse os habitantes a construir um santuário.
Diante da argumentação de que não seria escutado, Nossa Senhora recriou o braço perdido de Juan Alonso.
- Mostre os dois braços e todos o ouvirão - recomendou Nossa Senhora.
Assim foi feito e assim aconteceu.
Hoje em dia o peregrino pode subir as três milhas de encostas que separam a aldeia do santuário e chegará à magnífica construção, toda ela feita em louvor à Nossa Senhora da Cabeça.
Que é padroeira da hoje cidade de Andújar.
E ali está a imagem da Nossa Senhora da Cabeça na rua Tabatinguera, número 104, na Capela do Menino Jesus e Santa Luzia,
Talvez desconhecendo a origem da Santa, o escultor colocou uma cabeça decepada na mão da imagem, que a segura piedosamente.
A existência de alguns ex-votos de cera representando cabeças nos fala sobre a natureza dos milagres que ocorrem por ali.
Todas as enfermidades que atacam a cabeça, incluindo as internas, como perda de memória, loucuras, diversas formas de deficiência, e assim por diante, são objetos dos pedidos a Nossa Senhora da Cabeça.
Como a devoção àquela Santa tão particular à Andújar chegou, ainda que modificada, ao Brasil, será objeto de investigação, isso eu prometo. Embora eu saiba que existem fatos nos quais é prudente não mexer.
Voltarei ao assunto.
Larry Coutinho (foto e texto)

Igreja do Menino Jesus e de Santa Luzia - Crônicas da Cidade Plural







Rua Tabatinguera, 104
A Capela e uma grande área do entorno foram tombados pelo Departamento do Patrimônio Histórico. É considerada construção neogótica de importância arquitetônica. Projeto do arquiteto italiano Domingos Delpiano.Inaugurada em 13 de dezembro de 1901.Ana Maria de Almeida Lorena Machado era dona de uma grande chácara na rua Tabatinguera. Nos fundos existia uma fonte de água, chamada de Fonte Santa Luzia.Isso porque quem tinha problemas de visão socorria-se das águas “milagrosas” da fonte.A fé naquelas águas levou à construção da Capela..Nossa Senhora da Cabeça conseguiu um altarzinho dentro da Capela, onde é cultuada.
Larry Coutinho ( foto e texto)

Maison Blanche - Crônicas da Cidade Plural


Para mim era coisa de Curitiba.
Final da década de 30.
Minha mãe, algumas semanas depois de cada parto, esgotada a dieta, vestia-se com aprumo e dizia:
- Vamos à Maison Blanche!
Voltavamos carregados com muitos pacotes.
Sapatinhos de lã, casaquinhos, cueiros, mantas, fraldas de pano....
Eis que a Maison Blanche de Curitiba rompe com as brumas do passado e recebe contornos firmes na cronica de Julio Militão, onde Paulo Leninski é abundantemente citado:
“Aos domingos, faceiros, no terninho de marinheiro da Maison Blanche, iam à matinada do Cine Ópera para ver Tom e Jerry.”
Evidentemente bem depois dos anos 30, porém ainda no século passado.
“As meninas, gabolas, enfeitadas em suas saias godê, da Ioclena, e bluzinhas da Mazer, uma loja infantil ao lado da Goud, na Rua dos Turcos.”
“A Maison Blanche era de de meninos. A Ioclena e a Mazer, de meninas.”
Anos depois e para minha surpresa, vejo na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo, quase na esquina dos viadutos, calçada esquerda de quem desce para a cidade, uns dez ou doze metros de vitrines exibindo sapatinhos de lã, casaquinhos, cueiros, mantas, fraldas de pano.... - brancos, cor-de-rosa, azuis, verdes claro ... roupas de cama sob medida ...
E o nome da loja: Maison Blanche.
O mesmo aspecto despojado e ar de honestidade da loja de Curitiba.
Duas vitrines ladeando a entrada e uma faixa negra na testada, com o nome em letras brancas: Maison Blanche.
Embora a denominação e a organização visual sejam idênticas às de Curitiba, o negócio e os proprietários são outros.
Ainda está lá, para quem desejar conferir.
Procuro um pouco mais e encontro uma citação em Regina Horta Duarte, na obra Pássaros e Cientistas do Brasil. Em busca de proteção. 1894-1938”:
“Em 1908 a refinada loja da cidade do Rio de Janeiro, a Maison Blanche anunciou na revista Fon Fon, oferecendo os mais belos chapéus...”
Fotografo a Maison Blanche de São Paulo, tentando conseguir uma prova material da minha impressão onírica de menino pequeno.
É isso.


Larry Coutinho ( foto e texto)

Galeria Metrópole - Crônicas da Cidade Plural



São três entradas diferentes: na avenida São Luís, pela praça Dom José Gaspar e pela rua Basílio da Gama, que é quase um beco.
Um dos lugares paradigmáticos de São Paulo.
Abre para todos os bares e restaurantes da avenida São Luis, e para os que ficam na praça Dom José Gaspar, em volta da Biblioteca Municipal, hoje Mario de Andrade.
Tem vários subsolos e projeta-se para dentro da terra, como uma caverna.
Em redor de amplos espaços ficam pequenas lojas.
Restaurantes, cinema, boates, bares, livrarias, discos, casas especializadas na venda de poster’s e quadros... ganha duas canções especiais do Ivan Lins e do Vitor Martins. A primeira descreve a Galeria propriamente dita. A segunda avança no universo cultural e nas mudanças que ocorrem na cidade:

Galeria Metrópole I
Ivan Lins e Vitor Martins

“A galeria
foi a visão mais ampla
do que hoje é Sampa
e o que anda por ai.
Alem do que se canta
tudo o que hoje espanta
era o pais
Era o porão da liberdade
o embrião da caridade
no sub-solo da cidade.”
(...)

Quem freqüenta a Galeria Metrópole sabe o que os autores querem dizer. Lugar da santidade e do pecado mais negro, do amor fraternal e do ódio total, torna-se altar onde são sacrificadas todas as virtudes e ao mesmo tempo, templo das belezas imorredouras.
Nas quentes noites dos janeiros, homens solitários percorrem, de automóvel, o quadrilátero da praça, em busca de emoções mais fortes. Por todas as calçadas, mulheres e homens oferecem-se à sanha sexual dos notívagos. O ar exala sexo e devassidão. Galeria Metrópole, que os músicos e poetas julgaram merecer uma segunda canção:

Galeria Metrópole II
Ivan Lins e Vitor Martins

“A galeria foi
A caverna externa
Que expôs a baderna
A Semana Moderna
E o que tem que luzir
Proibiu Proibir
O barato total
O luar do sertão
E o sol tropical.
(...)
Inventou outros olhos
Caras bocas e nomes
Despertou outra fome
Nas mulheres e homens
Foi erógena antes
Foi andrógena antes
Como sempre Mutante
Outra vez bandeirante.
(...)
.O Bexiga era lá
A Bahia era lá
Todo baixo era lá
O Brasil era lá!”

Larry Coutinho ( foto e texto)

sábado, 3 de julho de 2010

Vidros e Perfumes - Crônicas da Cidade Plural














Reflexos

O vidro e a luz
que reluz
transparente,
são caso de amor
permanente.

Reflete o raio de sol
no vidro da janela
e rebate
aumentado,
entortado,
na parede branca
do quarto da donzela

in “Versos de vidro”
Yral Somar



Ladeira da rua Tabatinguera, que liga a praça João Mendes à várzea do Glicério.
Vidros e perfumes em profusão.
E essências para abastecer os perfumeiros da cidade.
Sábado, alguns minutos depois do meio-dia.
São tantos os fregueses que mal consigo espaço dentro das lojas especializadas para fotografar as vitrines em contra-luz.
Ando por ali em busca de duas igrejas: a da Nossa Senhora da Cabeça, ou do Menino Jesus e Santa Luzia, e a Igreja da Boa Morte.
Entretanto a vidraria e as essências conseguem chamar minha atenção.
São Paulo tem especializações, e tratarei delas oportunamente: vidros e essências na rua Tabatinguera; material eletrônico na Santa Efigênia; ferramentas na Florência de Abreu; panelas e artefatos para cozinha na rua Mauá; vestidos de noiva na rua São Caetano; roupas para bebê, na rua Oriente; roupas para adultos na José Paulino; comércio popular na Vinte e Cinco de Março; madeiras na rua do Gasômetro; artigos orientais na Galvão Bueno; e assim por diante.
Entretanto é sábado e estou na Tabatinguera contemplando a profusão de reflexos e formas e percebendo aromas inusitados.
Quero ir mais fundo na pesquisa mas não sou atendido pelos atarefados vendedores.
Voltarei num dia mais calmo.
Ladeira da Tabatinguera, reino insuspeitado dos reflexos e dos aromas!
Tabatinguera: Uma das mais importantes ladeiras do São Paulo muito antigo. Por ela descia-se para o rio Tamanduateí, para atividades e lazer ou para retirar um certo saibro branco que servia para a construção das casas. No século XVIII abrigou a casa da varíola. Um prédio utilizado para isolar os enfermos na época da epidemia. Em 1830, chamava-se Rua do Matemático. A Guerra de Canudos patrocinou enorme mudança nos nomes das ruas de São Paulo. A denominação de rua Moreira Cesar foi inevitável, mas não foi ali. Ali usou-se o nome rua Coronel Tamarindo ( o famoso coronel que dizia aos seus comandados: - Em tempo de muricy, cada qual cuide de si!). Em 1899 a rua recebeu o nome de Doutor Rodrigo Silva. Mas só metade da rua. A outra metade não tinha nome, era conhecida como “... a rua detrás da (igreja) Boa Morte”. Só em 1914 a ladeira recebeu o nome de Tabatinguera, denominação tupi que se referia ao barro, talvez o saibro branco que era colhido na várzea do rio Tamanduatei, no pé da ladeira. (Depois o nome Doutor Rodrigo Silva foi aplicado a uma rua próxima.)

Larry Coutinho ( foto e texto)

Igreja da Santa Cruz dos Enforcados - Crônicas da Cidade Plural
































Igreja da Santa Cruz dos Enforcados
Praça da Liberdade, 238



Francisco José de Chagas nascido e criado na rua das Flores atual Silveira Martins recebeu o apelido de “Chaguinha”.
Entrou para o exército e participou de um protesto pelo recebimento dos salários atrasados. Foi considerado culpado, e condenado à morte por enforcamento.
Em 20 de setembro de 1821, na forca erguida no atual largo da Liberdade, foi supliciado o “Chaguinha”.
Antes, enforcaram o soldado Contindiba.
Em seguida, o “Chaguinha”.

Chegada a vez do “Chaguinha”, as cordas arrebentaram duas vezes. O povo, penalizado com o infortunio do desventurado, clamou por “Liberdade!” Expressão que deu nome ao bairro. Entretanto as autoridades providenciaram corda mais resistente que arrebentou pela terceira vez. Providenciaram um laço de boiadeiro, de couro. E o “Chaguinha” foi enforcado definitivamente, na quarta tentativa.

O rapaz era muito querido pela população.
Nos meses seguintes ergueram uma cruz e acenderam velas no largo.
Em 1887 edificou-se uma Capela.
A primeira missa foi rezada em 1 de maio de 1891.
Na nova Igreja da Santa Cruz dos Enforcados.
Que está lá, com cinco cruzes no altar e dois salões próprios para receber as velas acesas pelos fiéis.
Um deles subterrâneo.
Negra, no centro do altar, a cruz maior veio do Cemitério dos Aflitos, que existiu no lugar.
As festas comemorativas fixaram-se em 3 de maio, a pedido da Irmandade.
Com direito a procissão.
A Igreja foi reformada nos anos vinte. No ano 2000 houve incêndio provocado por uma devota, que ali depositou enorme quantidade de velas.
A Igreja é também chamada de “Igreja das Almas”.

Larry Coutinho( foto e texto)