domingo, 18 de agosto de 2013

Cinemas esquecidos - Crônicas da Cidade Plural.

                                Cine Belas Artes -   Rua da Consolação

Quando eu era menino, nas décadas de quarenta e cinqüenta, papai projetava filmes em casa, abrindo para a família o fabuloso universo da imagem em movimento e desvendando o mundo da fantasia.Primeiro papai comprou um projetor Kodak que mostrava filmes mudos na tela. Em geral eram desenhos do Walt Disney. Depois ele comprou um projetor Bell & Howell, com capacidade para filmes sonoros de 16 milímetros.

E as sessões de cinema doméstico adquiriram novo sabor, sepultando para sempre as novelas radiofônicas, as engraçadas histórias do Nhô Totico, e as leituras familiares dos livros de Alexandre Dumas.  Os três mosqueteiros, Vinte anos depois, O visconde de Bragelone...
Já era a imagem pegando pesado sobre a literatura e o radio.
As grandes produções de Hollywood podiam ser alugadas facilmente.
Entusiasmado, meu pai adquiriu uma filmadora Paillard Bolex, pensando talvez em realizar os seus próprios filmes.
Tirante as poucas imagens de férias em Poços de Caldas, a família na chácara do doutor Pacheco, o almoço na casa da minha-avó-que-morava-em-Niterói, nada mais foi feito, indicando que fazer cinema era bem mais complicado do que parecia.
O projetor de filmes também era utilizado para sessões secretas, vedadas aos menores.
Curioso, certa vez meu irmão espiou pelo buraco da fechadura da porta trancada e revelou assustado:
- Tem mulher pelada!
É claro que existiam os cinemas, que nós também freqüentávamos.
Cinemas? Quais cinemas e onde foram parar?

No primeiro volume do trabalho Memória Urbana, a Grande São Paulo até 1940, publicação que uniu o Arquivo do Estado, a Emplasa e a Imprensa Oficial, existem diversos depoimentos de imigrantes.
O ítalo-brasileiro Rômulo Carraro, entre outros interessantes assuntos, tratou de alguns cinemas existentes na cidade de São Paulo dos quais anteriormente nunca ouvi ninguém mencionar os nomes.
Eis alguns trechos da entrevista:
“(...) Onde hoje é o Buraco do Adhemar, havia o Cine Central e eu ia muito lá assistir o Tom Mix. No Martinelli havia o cine São Bento, que era  todo acarpetado de vermelho, o cinema mais sofisticado de São Paulo. Além desses, havia muitos outros, inclusive na praça João Mendes (...)”
 “(...) Mas o outro encontro da rapaziada era o cinema: o Cinema Mafalda, por exemplo, tinha sala de espera com orquestra para entreter as pessoas. Primeiro, havia o footing  na rua e depois todos iam ao cinema. E como os filmes eram mudos, havia as orquestras. Os filmes mais antigos eram feitos com o som sincronizado: o barulho do mar, por exemplo, era feito por um tambor cheio de pedregulhos que rodava; o som dos cavalos andando era feito por dois meio cocos que batiam na mesa. O primeiro filme falado que assisti foi “Sombra e Glória”,  falado em espanhol. E era acompanhado por disco. Acontece que muitas vezes o som não acompanhava o filme. Todos os dias passava um filme novo. E distribuíam, de casa em casa, com banda de música e tudo, o programa dos filmes que iam projetar. Era tempo de Carlitos, do Gordo e o Magro, do Chico Bóia (...)”
Quem não lembra do Charles Chaplin e da sua criação, “The Tramp”, o vagabundo genial, com as calças largas na cintura, botas e um chapéu ridiculamente pequeno? E do gordo e do magro, autores de formidáveis trapalhadas? Menos um pouco do Chico Bóia, eu reconheço, o nome brasileiro do personagem de Roscoe Conkling Arbuckle (1887-1933), o Fatty Arbuckle, que no filme da Keystone “A noise from the deep” mostrou a primeira torta na cara do cinema mundial. E nos dois filmes em que ele apareceu contracenando com Buster Keaton, o que nunca sorria: “Out West” (1918), e “O garoto açougueiro” (1917).
O “Martinelli” citado era naturalmente o edifício Martinelli, o marco da explosão industrial da cidade de São Paulo. Ele foi o maior edifício da América Latina, com vinte e cinco andares, cento e cinco metros e altura, duas mil cento e trinta e três janelas...
Entretanto a menção feita ao Cine São Bento parece equivocada.
Em que pese a boa vontade e a memória do senhor Rômulo Carraro, que situou o Central Cinema exatamente onde ele ficava, isto é, “ - Onde hoje  é o Buraco do Adhemar”, e eu acrescento,  no prédio da Companhia Antarctica Paulista, equivocou-se e confundiu  o Cinema São Bento com   o  Cinema Rosário.
Ao tratar do Martinelli em abril de 1971 a extinta Revista Realidade fala no Hotel São Bento e no Cinema Rosário, com entrada pela Avenida São João, e diz que foi inaugurado pelo Príncipe de Gales.
O Rosário sim ficava no prédio Martinelli, e era um dos cinemas mais luxuosos da cidade. O primeiro a possuir poltronas almofadadas e estofadas com couro. 
Todas as sextas feiras o Rosário exibia filme exclusivo da Metro, e era freqüentado  por figuras da alta sociedade paulista.
O Rosário não foi inaugurado pelo Príncipe de Gales, mas sim por Pires do Rio, Prefeito de São Paulo, em dois de setembro de 1929. Com direito a orquestra regida pelo maestro Gabriel Migliori e o filme “O Pagão”, estrelado por Ramon Navarro.
Talvez houvesse uma entrada pela Avenida São João, mas o endereço oficial do Cinema Rosário era Rua São Bento, 397.
O Cinema São Bento ficava na Rua São Bento, número 245.
Possivelmente o engano do senhor Rômulo Carraro decorreu da proximidade entre os dois cinemas.
O Cinema Rosário foi desativado no ano de 1945.
O também citado Cinema Mafalda, inaugurado em 1912, ficava na Avenida Rangel Pestana.

O Bijou Theatre, ainda não citado por ninguém, inaugurado em dezessete de novembro de 1907, talvez tenha sido o primeiro cinema de São Paulo.
Ficava na Rua de São João (atual Avenida São João).
Digo que o Bijou Theatre talvez tenha sido o primeiro cinema da cidade porque não posso esquecer as chamadas “câmaras óticas para divertimento público”, instaladas em São Paulo desde 1834, embora até 1897 o cinema não existisse em nenhum lugar do mundo, nem como indústria, nem como arte.
Entretanto, no final do século dezenove, o Salão Progredior fazia apresentações das “lanternas mágicas”, pequenos comerciantes compraram aparelhos de projeção cinematográfica e as “fitas” eram apresentadas em espetáculos de variedades. 
Volta e meia alguém alugava um precário salão e abria as bilheterias para exibições de pequenas “fitas”. 
Em 1898, em São Paulo, o Theatro Apolo, que de tempos em tempos descia à condição de cinematógrapho, apresentou a “Cia. Variedades Francesas do ilusionista Faure Nicolay”, uma espécie de cinema, em sessões que as más condições do sistema elétrico público costumavam interromper.
Somente com a construção da barragem no rio Tietê, em Santana do Parnaiba, e a instalação da primeira usina hidroelétrica é que foi garantida a continuidade das sessões cinematogáphicas, que começaram a se consolidar  como forma de entretenimento das classes sociais mais baixas.
Nossa reserva com relação ao pioneirismo cinematográfico do Bijou Theatre encontra apoio em certo texto da Emplasa, que afirma: “-Na Rua Boa Vista foi aberto o primitivo Teatro Santana, onde funcionou o primeiro cinema de São Paulo. O segundo - o Íris - funcionou na Rua Quinze de Novembro, cuja projeção era feita em tela molhada para maior nitidez da imagem.”.

Segundo Sylvio Floreal, no seu Ronda da meia-noite - vícios, misérias e esplendores da cidade de São Paulo - ninguém conseguia resistir à curiosidade despertada pelo cinema.
Entretanto, comenta Floreal:
“Ao lado de uma série de benefícios salutares, de incontáveis utilidades, que este gênero de diversões traz consigo, há uma infinidade de males e desvios morais inevitáveis, que exerce no ânimo popular, escancarado a toda a coisa abominável, um despotismo férreo.”
Sylvio Floreal aborda um subproduto, por assim dizer, da sessão cinematográfica vespertina, na cidade de São Paulo.
A bolinação no cinema.
Enquanto as estrelas davam beijos delirantes na tela, o “espectador casquilho, dotado de safardanices”, ia ao cinema e desenvolvia uma piratagem digitálica sem dó nem piedade, sobre certas fulanas do sexo mole, muito amigas das tais massagens feitas no escuro... Começava com umas encostadelas furtivas e ampliava a ação das mãos. Se houvesse estrilo, o bolinador mudava de lugar e recomeçava a prática com outra mulher.
E ficava sempre a questão: sabendo da bolina quase certa, porque as mulheres iam sozinhas ao cinema?

Além dos bolinadores, despontavam sempre as vozes anônimas, perdidas na escuridão das salas.
“Cochichos, meias-frases, palavras intencionais, que escondem obscenidades, são ditos por certos tipos inconvenientes, comentadores baratos que, em pleno recinto atulhado de espectadores, dão classicamente a prova mais berrante e ridícula da sua formidável burrice.”
E segue Floreal, falando da importância adquirida pelo cinema no ócio paulistano:
“Atualmente, São Paulo, desde a plebe que se desunha no trabalho afanosamente, até as classes que brunem ociosamente as unhas, morre de amores por dois gêneros de passatempo diametralmente opostos - cinema e futebol (...)”


Até a véspera espectador das peças teatrais, o freqüentador do cinema precisou aprender a nova linguagem.
Por exemplo, o tenebroso caso das cabeças decepadas.
Coisa jamais vista no teatro!
Para compreender o caso um pouco mais profundamente, vamos lembrar o José Guadalupe Posadas.
Posadas foi um dos mais célebres ilustradores dos corridos mexicanos, uma forma de poesia semelhante aos livretos de cordel do nordeste brasileiro.
Nos pequenos espaços destinados à ilustração, Posadas conseguia colocar bailes inteiros, correrias, perseguições em cavalos, e inúmeros outros temas referentes ao cotidiano das regiões mexicanas referidas nos textos.
As ilustrações de Posadas eram repletas de seres humanos, porém... todos eles na forma de esqueletos ou caveiras!
Quando ouvi falar nas cabeças decepadas que apareciam nos filmes de cinema do início do século vinte e soube a respeito das ilustrações de Posadas, procurei uma explicação elucidativa e mergulhei até ao fundo na obra de Massimo Canevacci, chamada Antropologia da comunicação visual.

Quanto às cabeças decepadas, nada de alarme, leitor amigo. Era o close-up.
Para quem não está ligando o nome à pessoa, é aquele momento em que na tela surge apenas a cabeça do ator ou da atriz, separada do corpo.
Acostumados com o corpo inteiro do ator no palco, ainda espectadores de teatro, os freqüentadores dos cinemas, no início do século vinte reagiam desfavoravelmente diante do close-up.
Era o momento em que o rosto passava a exercer importante função dramática.
Devia refletir medo, amor, alegria, terror ou qualquer outra expressão exigida pelo roteiro do filme.
Na medida em que o ator ou a atriz estavam tentando demonstrar alguns sentimentos humanos possíveis, na verdade criavam a máscara apropriada.
Agora, a melhor parte: a máscara provoca uma inquietude e uma fascinação que envolve praticamente toda a humanidade.
Não acostumados com a necessidade de interagir com a máscara, os espectadores de cinema daquele tempo sentiam enorme desconforto e às vezes reagiam com violência.
Sem dúvida atrás da máscara de quem a punha ou criava, estava certamente escondido um segredo.
Então nosso amigo Posadas em suas ilustrações nas folhas soltas dos corridos mexicanos, nos desvendou o mistério: atrás da máscara, lá no fundo, sempre está a caveira!
Aberto o caminho podemos seguir adiante.
Walter Benjamim, outro estudioso dos fenômenos humanos foi além.
Para ele, essa caveira-máscara é o rosto rígido da natureza
Afirma que é o valor escultórico que permanece, excluídos todos os sentimentos humanos que se foram com a carne dissipada.
Ou seja, o close-up, a cabeça decepada, é o momento em que a carne existente sobre o rosto rígido da natureza (a caveira) é capaz de expressar os sentimentos humanos, sendo a caveira a expressão zero.  
Apesar dos apupos e reclamações em voz alta dos espectadores do início do século vinte.
Os “Cochichos, meias-frases, palavras intencionais, que escondem obscenidades...” apontados pelo nosso bom Sylvio Floreal.

     A obra de Sylvio Floreal ainda nos brinda com uma fotografia do interior do Salão High-Life, por ocasião da primeira exibição das fitas do Kinema-Color, em 1913.
Cadeiras comuns e estreitas acolhendo multidão apinhada.
Mulheres ampliando suas figuras por meio de enormes chapéus tipo bolos-de-aniversário.
Homens usando palhetas, chapéus de feltro e até mesmo cartolas, infernizando a vida dos espectadores das fileiras posteriores.
E um lotado balcão em forma de U, situado à-meia-nau...


 O rio Tietê, com suas glórias e miséria, marcou o destino de Santana do Parnaiba desde muito cedo.
A montante da cidade havia uma queda d’água chamada de Cachoeira do Inferno.
Ali, no começo do século passado, entre 1900 e 1901, os engenheiros ingleses da The São Paulo Railway, Light and Power Limited, com o auxílio de 750 operários, 70 carroças, 100 burros e 400 bois de carro iniciaram a construção da barragem. 
O Brasil era governado por Campos Sales e à barragem seguiu-se a construção da Usina Hidroelétrica do Parnaiba.
Anos depois a barragem, que media 19 metros de altura e 275 metros de extensão, recebeu o nome de Edgard de Souza. 
As águas movimentavam as turbinas da primeira hidroelétrica da Light no Brasil, a maior construída até então.
Poucos anos depois a Usina já se revelava pequena em função da demanda da Capital paulista.
Foi ampliada em 1912, ano em que começou a funcionar a usina termelétrica a vapor, na Rua Paula Souza, em São Paulo.
A energia elétrica gerada em Santana do Parnaiba permitiu, em 6 de agosto de 1909, a exibição, no cine Bijou de São Paulo, de documentário produzido pela empresa Serrador e mostrando a festa de São Norberto, realizada em Pirapora do Bom Jesus alguns dias antes - 6 de junho de 1909, domingo - com a presença do Cardeal Arcoverde, dos bispos de Niterói, Campinas e Botucatu.
Pela primeira vez em imagens aparecia a igreja matriz de Pirapora em todo o seu esplendor.
Com a garantia do fornecimento mais ou menos regular da eletricidade, alguns teatros passaram a funcionar como locais de apresentação de “fitas”.
Desde 1908 o comerciante Francisco Serrador utilizava o teatro Eldorado como cinema.
O cine Bijou instalou-se no antigo Café Éden Teatro.
Outros teatros transformados em cinema foram o Paris Théatre, o Teatro Popular...
Muitas salas especialmente destinadas ao cinema foram aparecendo: no centro, os cines Avenida, Popular, Radium, São João, Odeon, High Life, Paulista, Palace,  e nos bairros, o Cine Barra Funda, Cine Barracão, o D. Pedro e o Ipiranga, no Ipiranga, e o cine Barra Funda, o Piratininga e  o Íris, no Brás.
No fim dos anos dez surgiram outros cinemas: o Cine Teatro Espéria, o Cine Éden, o Cine Guarani, o Cine Radium, na rua São Bento, o Cine Recreio, o Cine Bresser, o Cine Brás-Bijou, na Rangel Pestana, o Cinema Belém, o Cine Brás-Politeama, o Cinema São Pedro, na Barra Funda, os cinemas Ambrósio e Edilson, o Cine Pavilhão...
Mais adiante neste blogue tratarei do documentário cinematográfico presente nas primeiras décadas do século XX, e sua importância para a divulgação dos fatos acontecidos em Pirapora do Bom Jesus e Santana do Parnaiba.
Sigo tratando do reino das águas.
A Usina Hidroelétrica do Parnaiba pedia águas abundantes e regulares. 
Para garantir o bom funcionamento depois das obras de ampliação, foi construída a represa de Guarapiranga, em São Paulo.
Em 1925 foi construída a Usina Hidroelétrica de Rasgão, entre Pirapora e Cabreúva - ano em que entrou em operação.
Em 1926 entrou em operação a geradora da Usina de Cubatão (Usina Henry Borden).
Na década de 30, para aumentar a capacidade da Usina Henry Borden, os engenheiros  promoveram a retificação e a reversão de curso do rio Pinheiros, em São Paulo, e a formação do reservatório Billings.


Certo filme lançado em exibição pelo Cine República, em 10 de outubro de 1924, produção da Rossi Filme, era cine-jornal que sumariamente apresentava - Na terra de Itu - Paisagens de Pirapora - O batalhão Hilário de Freitas - Aspectos da grande corrida automobilística São Paulo - Ribeirão Preto - Inauguração da Exposição de Estradas de Rodagem. Em 14 de outubro do mesmo ano o Cine República apresentou o documentário sobre a Inauguração da Exposição de Automóveis.
A filmagem da corrida de automóveis entre São Paulo e Ribeirão Preto foi a primeira entre as transmissões esportivas do gênero.
E o cine-jornal, aproveitando a deixa, completou a informação mostrando a evolução das estradas de rodagem do Estado e a inauguração da exposição dos novos automóveis de 1924-1925. 
Aqueles filmes primitivos foram certamente conseqüência do que aconteceu de 1907, em 19 de junho, a bordo do paquete francês Brasil.
Algumas imagens da baía da Guanabara foram filmadas.
Foi o primeiro filme feito no Brasil.

Graças a Santana do Parnaiba a luz elétrica chegou a São Paulo.
O Teatro Sant’Anna antes servido por bicos de gás trocou de sistema, e em 21 de abril de 1900 mostrou a casa toda iluminada por energia elétrica.
Foram colocadas quinhentas lâmpadas em todo o edifício

Depois de dois anos de atividade, o Bijou Theatre apresentou uma novidade: o cinematógrapho cantante.
Em São Paulo entre 28 ou 29 de julho de 1909 deu-se a estréia da nova técnica.
Ainda não era o filme falado.
Em 1909 o filme de cinema continuava mudo como dantes, porém, atrás da tela colocava-se a orquestra e os cantores, que acompanhavam a viva voz o transcorrer da ação cinematográfica.
O cinematógrapho cantante competia com as apresentações teatrais por ser o ingresso consideravelmente mais barato.
A primeira seção do cinematógrapho cantante deu-se, salvo erro ou omissão, no Cine Bijou, onde a artista dona Claudina Montenegro e o barítono Pepe mostraram suas belas vozes.
Existe registro da sessão do dia 29 de julho, com a apresentação da canção “Café de Puerto Rico”, que sucedeu à sessão do dia 28, sobre a qual nada sei.
O Bijou Theatre durou apenas seis ou sete anos e acabou em 1914 quando o prédio foi demolido.
E o cinema sonoro, falado, só chegou depois (The Jazz Singer, filme de 1927)
O cinematógrapho cantante teve o mérito de abrir  para os paulistanos uma série bem grande de canções estrangeiras que dominaram o panorama musical da cidade por bom tempo.
Até mesmo neste abençoado ano de 2012 alguns tenores apresentam em seus espetáculos trechos musicais, árias e canções que aqui pela terrinha tiveram suas primeiras apresentações nas seções de cinema cantante.
Alguns registros: Ci-ri-bi-ri-bin, Torna a Sorrento, a Canção da Viuva Alegre... e  segue uma pequena relação de canções apresentadas na época.
A modalidade cinematógrapho cantante logo foi adotada por dois outros cinemas: o Radium e o Smart, sobre os quais sei apenas o que consta nos registros abaixo:

“A viuva alegre” (I).
Filme: filme brasileiro em 3 atos.
Intérpretes: cantores da Companhia Lahoz, acompanhada pela excelente orquestra dirigida pelo professor Gonçalves.
Lançamento e programação: São Paulo. (Cine) Radium, de 2 a 8,12,13 e 15-08-09; 07-09-09; 17-10-09; 01-10-10, 25 e 26-07-10; 24-10-10.  (Cine) Smart, 25-04-12.
                                                -o-
“A viúva alegre” (II).
Filme: Cantante. Empresa Serrador.
Intérpretes: Ismênia Mateus, Santucci e Cataldi.
Lançamento e programação: Rio de Janeiro. Cinema Rio Branco. Mais de 300 apresentações. Posteriormente, “tournée” em São Paulo. Politeama Concerto, 30 e 31-12-09. Bijou Theatre, 11,15 e 16-01-10.
Comentário: “Valsa da viuva alegre” (“Die lustig witwe walzer”) (valsa), Franz Lehar
Foi a música de carnaval mais cantada em 1910, adaptada ao ritmo de marcha

Eis a relação de algumas canções apresentadas pelos cinematographos cantantes em São Paulo, em 1909: “Café de Puerto Rico” - “Cavalaria rusticana” - “Chateau Margaux” -  “Ci-ri-bi-ri-bi” - “Crispino e La Comare” - “Dueto da Mascote”  - “Dueto de amor da viúva alegre” -  “Duo de la africana” - “Duo de los patos” - “El barberillo de Lavapiés” -  “Guitarrico” - “L’adieu du matin” - “La educanda di Sorrento” -  “La farfala” - “Las sapatillas” -  “Legenda vallaça” - “Os aventureiros” - “Racundite harmonie” - “Torna a Sorrento”  - “Tui tui”
Eram canções populares, árias de operas e trechos de operetas populares na época.

Sei que tudo isso pode parecer distante  e irreal, uma vez que atualmente basta um simples DVD  colocado displicentemente  na maquina apropriada para assistirmos em som estereofônico, a cores, em 3D, qualquer filme que assim seja produzido pela industria cinematográfica, sem sair de casa e acomodados em nossas poltronas favoritas.
E sei que aguardamos a chegada dos filmes holográficos, momento em que a ação será toda no espaço da nossa sala, sem telas...
Porém estamos a tratar dos velhos cinemas de São Paulo:
Cinematographico Migon, inaugurado em 1908, ficava no largo do Mercado, próximo à atual Rua Brigadeiro Tobias.
Atos do Liceu (padres salesianos), inaugurado em 1909. Na Alameda Nothmann, nos Campos Elíseos. Utilizava nas projeções um cinematógrapho aperfeiçoado Pathé.
Polytheama Concerto - apresentava espetáculos, musica e cinema. Comprado em 1911 por Francisco Serrador. Depois mudou o nome para Polytheama Paulista. Situava-se na Rua de São João com a rua Anhangabaú. Destruído por incêndio em 1914.

Para quem gosta de tudo bem explicadinho, nos mínimos detalhes, informo que o Polytheama exibiu filmes com os seguintes aparelhos:
-Biographo Americano (1902);
-Grand Cinématograph Franco-Brèsilien, da empresa Didier - cinema ambulante (1908);
- Cinematógrapho cantante (1909);
-Cinemacantante de Edison (1914);
-Kinetophone (1914);
-Cinematógrafo Warwick.

Follies Bergère - um café-concerto que eventualmente passava filmes.  Ladeira Santa Ifigênia, 7. Inaugurado em 3 de novembro de 1914.
Cine Alhambra. Inaugurado em vinte e um de julho de 1928. Rua Direita, 33 (atual 223).

Na década de cinqüenta ir ao cinema exigia certa preparação.
Para os homens o traje era terno completo e gravata.
As mulheres quase sempre entravam acompanhadas. Alguns cinemas não permitiam mulheres desacompanhadas.
Os cinemas se tornaram  grandes e confortáveis.
O Metro, na Avenida São João, tinha o Pullman, um espaço reservado no primeiro andar, onde se pagava mais caro.
Outros cinemas elegantes foram o Ipiranga, o Marabá e o Marrocos.
Ainda no centro, as salas do Alhambra, na Rua Direita, do Cine República, do Coral, do Olido, do Paissandu, que eram luxuosas, e do Cine Santa Helena, na Praça da Sé e do Recreio, na Quintino Bocaiuva, que não exibiam tanto luxo, mas atraiam grande público.
As noites dos anos cinqüenta começavam pelos cinemas e bomboniéres,  passavam pelas livrarias, casas de discos, leiterias, restaurantes e podiam terminar em boates  ou em bares.

Vistos os primórdios, fui ao Arquivo do Estado pesquisar, nos jornais, os nomes de alguns dos cinemas existentes no centro da cidade de São Paulo entre 1950 e 1970, que muitos consideram ser talvez a época dourada dos remanescentes do grande sonho cinematográfico.
 O resultado está na lista abaixo:

Apolo - Rua Conselheiro Nébias.
Arizona - Avenida Rio Branco.
Art Palácio - na Avenida São João. Largo do Paissandu.
Atlas - Avenida Rio Branco, 300.
Áurea - Rua Aurora, 522
Barão - Rua Barão de Itapetininga.
Boulevard - Rua Antônio de Godoy, 83.
Broadway - Avenida São João.
Cairo - Rua Formosa, 401.
Centenário - Avenida Guilherme Cotching.
Cinemundi  -  Praça da Sé, 259.
Climax - Rua Espírito Santo, 330.
Cometa - Rua Aurora, 541.
Comodoro - Avenida São João, 1462.
Coral - Rua 7 de Abril  - filmes de arte (europeus) de propriedade de Dante Ancona Lopes, mais tarde ele abriria o cine Belas Artes, fechado recentemente.
Éden - Avenida São João, 1140.
Esplanada - Praça Julio de Mesquita, 33
Europa - Rua Joaquim Gustavo, 40.
Gazeta - Avenida Paulista.
Ipiranga - Avenida Ipiranga, 786. Havia o Pullman, uma espécie de confortável mezanino. Subia-se de elevador.
Itamarati - Rua Barão de Tatuí, 804.
Jóia - Praça Carlos Gomes, 82.
Jussara -  na Rua Dom José de Barros, 306.
Líder - Rua Conselheiro Nébias, 197.
Los Angeles - Rua Aurora, 501.
Marabá - Avenida Ipiranga, 757.
Marrocos - Rua Dom José de Barros, quase ao lado do antigo                                 Quartel-General do segundo Exército. Entrada monumental.
Metro - na Avenida São João, 801.
Metrópole - Praça Dom José Gaspar, 134.
Miami - Praça Marechal Deodoro, 340.
Moderno - Rua da Mooca, 2224.
Mônaco - Avenida Rio Branco, 61.
Monark - na Avenida Brigadeiro Luís Antônio.
Nikkatsu - Rua São Joaquim, 129
Nipon - Rua Santa Luzia, 84.
Niterói - Rua Galvão Bueno, 102.
Normandie - na Avenida Rio Branco, 425.
Oásis - Praça Julio Mesquita, 117.
Odeon - com três salas de projeção: Sala Verde, Sala Vermelha, Sala Azul
Olido - Avenida São João.
Ouro - Largo Paissandu, 138.
Paissandu - Largo Paissandu, 60
Pedro II - Rua dos Timbiras, 144
Pigale - Largo do Arouche, 426.
Radar - Avenida Santo Amaro, 525.
Regência - Rua Augusta, 973.
Regina - Avenida São João, 1140.
República - Praça da República, 365.
Rio Branco - Avenida Rio Branco, 500.
Rivoli - Avenida São João, 587.
Saci - Avenida São João, 425.
Santa Helena - na Praça da Sé, 261 (antigo teatro). O edifício foi implodido para a construção da estação Sé do Metrô.
Scala - Rua Aurora, 720.
Windsor - Avenida Ipiranga, 974, esquina da Rua Amador Bueno.

Eram cinemas que anunciavam os filmes nos jornais.
O cine Broadway, que não existia mais na época da nossa pesquisa, teve o nome ligado a diversos assuntos fora do meio cinematográfico.
Pertencia à família César dos Reis, que também era proprietária do castelinho da Rua Apa.
Um dos irmãos decidiu transformar o cinema em pista de patinação, foi impedido pela mãe e pelo irmão, e cometeu duplo assassinato e o suicídio, na versão apresentada pela polícia.
O Cine Teatro Broadway inaugurou suas atividades em  1934 e a exemplo do Palais de Glacê, que existia em Buenos Aires desde 1910, o Broadway tinha no teto uma grande cúpula de vidro.
Era um grande espaço com 1661 assentos, e servia também para outros cometimentos, além do cinema.
Foi o principal lançador de filmes da mexicana Palmex. No início exibia filmes da RKO Radio e da UFA, a exemplo do UFA-Palácio  também na avenida São João, mais tarde Art-Palácio.
Entre 1940 e 1961 o exibidor foi a Companhia Serrador.
Em 1970 o prédio foi demolido.
Outra função desempenhada por alguns cinemas de São Paulo foi a de acolher os astros e estrelas cariocas, cantores e cantoras do rádio, quando vinham atuar em São Paulo.
Cinemas da Avenida Ipiranga e Avenida São João transformavam-se em palco radiofônico da música popular brasileira e de seus grandes nomes.
Assim foram utilizados o Metro, da Avenida São João, e o Art-Palácio, quando ainda era Ufa-Palácio.
Também o cine Broadway serviu e palco para os artistas da era da rádio.
O cine Broadway era grande e acolhia centenas de radio-ouvintes, mas não o suficiente para atender à demanda, e assim as proximidades do cinema, na Avenida São João, ficavam repletas de pessoas que não conseguiam ingresso.

Hoje todos aqueles grandes cinemas são estacionamentos, depósitos ou igrejas, e aqueles cinqüenta e tantos cinemas do centro velho de São Paulo não existem mais.
 É preciso reconhecer que na relação não foram considerados os inúmeros cinemas dos bairros.
  Havia cinemas em todos os bairros, inclusive em Santana, Penha e Pinheiros.
Em 1925 foi instalado o primeiro cinema de Pinheiros, no salão paroquial, ao lado da Igreja Matriz.
  Em 9 de julho de 1927 foi inaugurado  o Cine Pinheiros, na Rua Butantã, e assim por diante.
Para não ficar a melancólica visão de uma cidade que perdeu todos os seus cinemas, é possível trazer alvíssaras, boas notícias, e arejar o ambiente.
Porque os cinemas de São Paulo não desapareceram.
Transformaram-se, e estão pela cidade inteira, em shoppings, cineclubes, algumas salas “de rua”, localizadas no centro, nos bairros e na Grande São Paulo.
O conceito de Grande São Paulo ampliou nos mapas a mancha urbana que já existia de fato, englobando diversos municípios vizinhos e muitos bairros distantes do centro.
Em junho de 2012, munido de paciência e de uma simples máquina de calcular, fiz um levantamento dos centros culturais, salas de cinema e poltronas disponíveis na São Paulo atual.
Entre cineclubes, salas especiais, cinemas de rua (centro e bairros), shoppings e a Grande São Paulo, a população paulistana conta com 68 centros culturais (shoppings e assemelhados), 414 salas de cinema e 79.732 poltronas.
Considerando a média de quatro sessões diárias, as salas de cinema de São Paulo diariamente colocam à disposição do público, 318.928 poltronas.
Ou seja, em que pesem as novelas na TV, os DVD’s, os espetáculos teatrais, as apresentações musicais, o futebol e os eventos especiais, o cinema paulistano ainda mantém seu posto na preferência popular e sustenta a posição com dignidade.  
Confortáveis, inúmeros cinemas estão equipados com ar condicionado e projetores de última geração. 
Outros poucos ainda já fazem projeções em 3D.
Nada mau para a rapaziada que há pouco mais de oitenta anos ia fazer o footing, namorar e assistir o Tom Mix no Cine Mafalda!
Ou então, recuando um pouco no tempo, freqüentava o Salão Progredior para assistir as apresentações das  assombrosas “lanternas mágicas”.

Sugestões para saber muito mais:
-Simões, Inima - “Salas de Cinema de São Paulo”, 1990.
-Araujo, Vicente de Paula - “Salões, circos e cinemas de São Paulo” - Ed. Perspectiva, 1981.
-Santarelli, Atilio - “Cinemas Antigos do Brasil”, Fotoblog.
     -Floreal, Sylvio. “Ronda da meio-noite - vícios, misérias e esplendores da cidade de São Paulo”. São Paulo. Editora Paz e Terra. 2003 (1a. edição em 1925).
    -Bibliografias complementares, especializadas: basta solicitar ao autor por e.mail

Larry Coutinho


Texto parcialmente planejado e executado no leito 5 da Unidade Coronária do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, entre os dias 6 e 10 de julho de 2012. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A carruagem de fogo da meia noite - Crônicas da cidade plural


            
Coração enfartado, eu curtia as delicias e as incertezas da recuperação em cama de hospital.
Em volta, as lindas gerações que andam por ai salvando o Brasil: médicos, enfermeiras, auxiliares de enfermagem, lavadeiras, faxineiras, técnicos de laboratório...
Gerações douradas, combativas, estudiosas, alegres e competentes.
Eis que no meio delas, linda menina se revelou originária do Maranhão.
Contei uma das minhas histórias e recebi de volta a aterradora narrativa sobre a lenda da Manguda, um fantasma que no final do século XIX assombrava a região onde hoje fica a praça Gonçalves Dias, em São Luís.
A aparição era figura alva como um lençol, transportando estranha luz na cabeça.
Em seguida a moça lembrou da carruagem de fogo de Ana Jensen.
Ana Jensen era rica e de presença marcante  na vida social e política  da São Luís do século XIX.
Entretanto passou à história afamada pela sua crueldade e pela forma desumana com que tratava os seus escravos.
Depois da sua morte, certas ruas de São Luís  passaram a receber, nas horas tardas das noites, a carruagem de Ana Jensen, puxada por cavalos decapitados, cujas ferraduras em ásperos choques com as pedras do pavimento produziam línguas de fogo.
Quem conduzia a carruagem era um escravo, também decapitado e com o corpo sangrando.
Suas passagens eram marcadas por sons horríveis, misturas aterradoras de choques de ferragens e de gritos e coros de lamentações dos escravos.
Os habitantes da velha São Luís fugiam com medo de serem apanhados e levados para o passado, para os tempos em que Ana Jensen reinava na sua mais horrenda crueldade.
Na ocasião eu  estava lendo alguns livros, sobre os quais tratarei mais adiante.
Porém a narrativa da linda enfermeira fez-me lembrar de outro veículo que também corria por ruas e vielas de Paris, capturando e transportando pessoas, habitantes  dos anos dois mil, para o inicio do século, por volta de 1920.
Não era uma carruagem de fogo, mas um Renault 1920, amarelo, que surgia percorrendo becos e vielas de Paris exatamente à primeira pancada da meia noite.
Ao contrário da carruagem de fogo da Ana Jensen, que ninguém filmou, este Renault foi artista de cinema e importante personagem no filme de Woody Allen chamado Meia Noite em Paris.
Assistir ao filme (deve ser deixado para o fim), ler os livros , tudo isto nos leva a profundo mergulho no alucinante mundo dos anos vinte parisienses.
Ocasião em que  James Joyce (Ulisses) e o próprio Ernest Hemingway  modificaram profundamente a literatura, que depois deles nunca mais foi a mesma.
Porém assistir o filme sem antes ler as obras indicadas não é tão bom como fazer o contrário.
A leitura previa permitirá a quem assistir o filme a pronta identificação dos personagens.
Quando, ao descer do Renault amarelo, o personagem do filme entrar em uma festa, ao som alucinante de cantor e pianista que se esmera na interpretação de Le’ts fall in love, será possível reconhecer imediatamente Cole Porter, além de alguns convivas, por exemplo, Zelda e Scott Fitzgerald.
Enquanto isso, a leitura de Shekespeare and Company  trará certa familiaridade com os Fitzgerald, o senhor e senhora Ezra Pound, Sherwood Anderson , George Moore, Walt Witmann, Jules Romains, Paul Valery e, é claro, James Joyce, uma vez que Sylvia Beach  foi a primeira pessoa com coragem suficiente para editar Ulisses, um livro proscrito e proibido por diversos países, entre os quais Estados Unidos e Inglaterra, os dois maiores mercados literários da época.



Para saber muito mais:
Allen, Woody - Meia Noite em Paris. Filme de abertura do Festival de Canes, Seleção Oficial. Dois recém casados observam profundas alterações nas suas vidas graças às estranhas experiências que vivem em Paris, onde, como se sabe muito bem, tudo pode acontecer.
Hemingway, Ernest.  Paris é uma festa. Editora Bertran. Brasil. 7a. edição, 2005. Esta obra cobre o período de 1921 a 1926, em Paris.
Beach, Sylvia . Shakespeare and Company - Uma livraria na Paris de entre-guerras. Rio de Janeiro, 2a. ed. Casa da Palavra. 2007. Fundada no início dos anos vinte, a livraria foi ponto de encontro dos principais artistas e escritores que habitavam Paris na época. Inclusive Ernest Hemingway. Entre as três fontes acima citadas existe estreita e competente ligação. Por exemplo, personagem de Meia Noite em Paris visita a livraria de Sylvia Beach e revive cenas contadas por Ernest Hemingway.
Mclain, Paula - Casados com Paris - Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2011. História de amor e traição do jovem casal Hemingway nos loucos anos de 1920. Ao contrário dos outros dois livros, é um romance.

Texto escrito entre 6 e 10 de julho de 2012, leito número 5 do Hospital Dante Pazzanese, São Paulo.

Larry Coutinho


domingo, 4 de março de 2012

Entre o mar e a fogueira - Crônicas da cidade plural

O dia 8 de março aproxima-se a passos largos.
Será mais uma justa comemoração festiva, no dia Internacional da Mulher.
Mulheres queridas, não pensem que nós homens ignoramos as crueldades, desventuras, injustiças, imposições, agressões e preconceitos aplicados contra vocês, no decorrer da história e através dos tempos.
Acompanhamos com crescente indignação, acreditem.
Porém muitas de vocês já conquistaram elevado e protegido patamar de onde podem decidir o próprio destino com alegria e firmeza.
Falta muito para conquistar, porém vejamos o que já ficou para trás.
Talvez não seja agradável relembrar, porém é sempre necessário fazê-lo para que os fatos ocorridos não aconteçam novamente.

Dois textos chamaram nossa atenção para certas ocorrências que até então ignorávamos, ou que pelo menos não correlacionávamos.
O primeiro encontra-se no livro de Laura de Mello e Sousa O Diabo e a Terra de Santa Cruz; o outro, no pretensioso porém bem feito volume de Pedro Homem de Mello sobre as Danças Portuguesas.
O que um diz nada tem a ver com o que afirma o outro.
Ligam-se somente em um momento pontual.
Laura de Mello e Souza mostra uma lista, elaborada a partir de Autos de Fé da Inquisição de Lisboa, indicando quatorze Autos de Fé instaurados contra feiticeiras, todas elas parentes de homens envolvidos na lide marítima.
Na verdade eram esposas, filhas ou viúvas de marinheiros, pilotos, mareantes ou homens-do-mar.
Pedro Homem de Mello disserta sobre a natureza das danças regionais portuguesas, já no século vinte.
Ressalta o papel dominante do homem, no sapateado e no toque de castanholas, enquanto a mulher tem o dever de mostrar-se apagada e discreta.
Trata assim, de forma geral, a dança de diversos Concelhos (Concelho, com c, como se grafa em Portugal) . No entanto, informa que no Concelho de Viana do Castelo (Alto Minho), o Carreço é uma dança para a mulher.
Dali o homem parte, muito cedo.
Não se trata mais do homem do mar, mas de pedreiro ou estucador, que passa longos períodos longe de casa.
De vez em quando regressa à aldeia.
As mulheres ficam, cuidando dos filhos, da casa, trabalhando nas hortas e pomares e como a região é de vinho, tratando das vinhas e adubando os campos com algas e sargaços que vão buscar no mar.
Então.
A dança chamada Carreço parece ter como finalidade principal a valorização dos corpos e dos movimentos femininos.
As figuras dançadas põem em relevo os dotes das mulheres.
A posição altiva da cabeça destaca-lhes o “perfil de medalha”, os braços, meio levantados, assemelham-se ao jeito de asas.
Elas são, naquele instante, soberanas, e quase conseguem voar.

Do Alto Minho, seguimos com Laura de Mello e Sousa ao país basco.
Lá, no início do século dezessete lindas mulheres bascas eram deixadas sozinhas em casa pelos maridos pescadores, verão após verão.
Para De Lancre, um temível juiz da inquisição que atuava em Labourd - setor francês da região basca - essas mulheres solitárias e atarefadas, destilavam com o olhar “perigos de amor e sortilégio”.

Desde o século nove as baleias (Balaena biscayensis), no fim dos outonos, afluíam ao Golfo da Gasconha onde permaneciam por todo o inverno.
No verão, chegavam os cachalotes.
Alguns encalhavam nas praias das enseadas onde eram retalhados pelas populações costeiras.
Porém a partir do século treze escassearam os cetáceos encalhados e os bascos começaram a procurá-los no mar.
No início os pescadores limitaram-se ao mar de Biscaia.
Dai desprenderam-se, nos séculos quinze e dezesseis, em caravelas, aventurando-se no oceano.
Sempre seguindo as baleias chegaram aos confins do Atlântico Norte: Spitzberg, um grupo de ilhas que hoje pertencem à Noruega, bem próximas ao local em que afundou no ano 2000 o submarino nuclear russo Kursk, onde era abundante a Balena Mysticetus, ou baleia do ártico; e também aos mares da Islândia e da Groenlândia. Por fim, chegaram ao Labrador. (Ver San Juan, 1565).
No ano de 1600, em apenas um porto basco, Saint-Jean-de-Luz, existiram sessenta baleeiras, grandes o suficiente para trabalhar os cetáceos em pleno mar e extrair-lhes o toucinho, ou óleo.
Cada barco era tripulado por 50 ou 60 homens.
A essa altura, 3.000 bascos ou mais se ocupavam em capturar baleias.
As instalações bascas descobertas no Labrador são inúmeras.
Por exemplo, na chamada Baía Vermelha os vestígios arqueológicos estudados indicaram que os navios e homens passaram ali longos períodos de tempo.
Mostraram não só que alguns barcos baleeiros naufragaram, mas também que esqueletos humanos repousaram para sempre no fundo das águas geladas do Ártico.

Quanto aos portugueses, lançados ao mar desde o século quatorze, houve época em que um quinto, às vezes um quarto da população estava envolvida na faina ultramarina.
Digamos, um ou dois homens por família.
As suas naus, caravelas, carracas e galeões navegavam por todos os mares.
Além dos marinheiros, milhares de outros portugueses ocupavam-se das tarefas de colonizar terras distantes.
Inteiramente abandonados em locais selvagens que deveriam desbravar.
Espalhavam-se por área geográfica imensa, das Molucas ao Brasil.

Porém a atividade principal lusitana era o comércio, por isso as carracas percorriam incessantemente a chamada Carreira das Índias e a Carreira do Brasil.
Em linhas gerais, uma entre três embarcações naufragava.
Outras se incendiavam, algumas poucas eram capturadas pelos inimigos, muitas, por não poderem mais navegar, roídas pelos gusanos, eram simplesmente abandonadas nas Índias, ou onde estivessem.

Quanto à Espanha, os registros de naufrágios de caravelas no golfo do México são impressionantes.
Igualmente passaram por maus pedaços os chamados Galeões de Manila e as frotas de veleiros que procuravam abastecer de ouro e prata os cofres da Casa de Contratación, em Sevilha, também conhecida como Casa de las Índias.
A ação inquisitorial não se limitava porém à península Ibérica.
Diz Laura de Mello e Sousa:

“ Na Bretanha, onde também abundavam marujos, suas mulheres faziam sortilégios para terem os maridos de volta: limpavam as capelas próximas às suas aldeias e jogavam o pó no ar. Com isto, esperavam ter vento favorável para o retorno dos esposos”.

Como o amigo leitor começa a perceber não estamos aqui muito preocupados com aqueles que navegavam.
Antes, interessam-nos os que ficavam em terra, aguardando notícias que nunca vinham e, em muitas ocasiões, maridos, pais e filhos que jamais retornavam, sem que nada se soubesse sobre eles.
Algumas mulheres, talvez desesperadas, depois de anos e anos sem notícias dos seus homens, recorriam às adivinhações, curas mágicas, benzeduras e bruxarias.
Colocavam-se, então, a um passo da fogueira.

Quando o poder religioso ainda confundia-se com o poder real, o Papa Gregorio nono, em 20 de abril de 1233, editou duas bulas : a bula Vox in Rama e a bula Licet ad capiendos, a qual verdadeiramente marcou o início oficial da Inquisição.
Eram dirigidos aos padres dominicanos, inquisidores.
Em 1252, o Papa Inocêncio quarto editou a bula Ad extirpanda, que institucionalizou o Tribunal da Inquisição e autorizou o uso da tortura.
O poder secular era obrigado a contribuir com a atividade do tribunal da igreja.

Pobre da infeliz que caísse nas garras de tais tribunais.
Nos processos da inquisição a denúncia era prova de culpabilidade, cabendo à acusada a prova de sua inocência.
Durante quase quatrocentos anos, inúmeros autores iluminados trataram de crimes, confissões e penas.
Em 1376 o inquisidor Nicolau Eymerich escreveu o Directorium Inquisitorum que podemos traduzir pobremente como Manual dos Inquisidores onde externou conceitos, normas processuais, termos e modelos de sentenças a serem utilizadas pelos inquisidores.
O mais famoso dentre todos os livros sobre bruxaria, o Malleus Maleficarum , que também pode ser pobremente traduzido como O Martelo das Bruxas, ou ainda Manual de Caça às Bruxas, foi escrito em 1468 por dois monges dominicanos: Heinrick Kramer e Jacobus Sprenger.
Não iremos dissertar sobre a obra; ela é facilmente encontrada nas livrarias, tendo sido reeditada em português e chegou a ser best-seller da década de 80, no século passado.

Os inquisidores e seus tribunais eram ativíssimos e entre 1450 e 1700, vinte mil pessoas foram queimadas na Europa, acusadas de feitiçaria.
Portanto não estamos tratando de perfumarias.
A verdade é que o pico de repressão à feitiçaria na Europa situou-se entre os anos 1540 e 1630, ou final do século dezesseis e início do século dezessete.
Exatamente no período das grandes navegações, quando o mundo começou a ser descoberto e desenhado em mapas.
Porém as conquistas técnicas só viriam depois.
O mar era ainda território do demônio, povoado por redemoinhos, tufões e gigante, figura que nos foi apresentada por Camões ao narrar a epopéia de Vasco da Gama: o Adamastor, além do aterrador calor solar a torrar naus e corpos além da linha do equador.

Imagine agora amiga leitora que você é uma camponesa que vive à beira do mar Tenebroso, nome aplicado pelos antigos ao oceano Atlântico.
Seu marido e dois filhos homens embarcaram em caravelas, cada um para um lado do mundo, e depois de três anos de exaustivos trabalhos de manutenção de pequena quinta e de luta pela sobrevivência nenhuma notícia chegou aos seus ouvidos.
Porém, algumas casas para lá, quase na saída do povoado, mora uma mulher que fez um pacto com o demônio e pode dar-lhe boas novas de cada um dos seus.
Ela é amiga e você é convidada para tentar fazer arribar uma das naus na baía fronteira.
Para quem não está familiarizado com o termo, arribar significa que certas condições do mar, ou do navio, obrigam o comandante a entrar em porto no qual não tencionava lançar ancoras.
É um dos seus filhos que volta!
Basta, para conseguir tal milagre, invocar o diabo marinho em suas orações:

“Grande diabo marinho, a ti entrego este pinho...”

Suas mãos tremem, amiga leitora, mas a fé e o avassalador desejo de tornar a ver pelo menos um dos filhos fazem com que você prossiga na reza, observada por duas ou três pessoas do povoado.
No dia seguinte você é presa, em virtude do pequeno ato de contrição ao demônio.
Será acusada de heresia, diante da Inquisição e duramente torturada, até dizer os nomes das pessoas que estavam presentes, e portanto cúmplices em sua tremenda falha.
Uma delas é sua filha de 13 anos e ela também será presa e torturada.
Você será mantida incomunicável; e ninguém, a não ser os agentes da Inquisição tem permissão de lhe falar; nenhum parente poderá visitá-la.
Você ficará acorrentada. Você é uma pobre mulher, sem renda mensal, que vive dos legumes e frutas da sua horta.
Não poderá custear as despesas da prisão, então não receberá alimento.
Seu julgamento será secreto e particular, e você terá de jurar nunca revelar qualquer fato a respeito dele, no improvável caso de ser solta.
Não conhecerá nenhuma das testemunhas apresentadas contra você, e não poderá apresentar nenhuma em sua defesa.
Os inquisidores afirmam que tal procedimento é necessário para proteger os informantes.
A maioria do tribunal considerou que seu crime é provável, embora não certo.
Então votou pela aplicação da tortura.
Depois da tortura ter sido decretada foi adiada na esperança de que o medo a levasse à confissão plena.
A confissão pode beneficiá-la com a absolvição de um padre para salvá-la do inferno.
Você está sujeita as penas impostas pela Inquisição, que podem ir desde simples censuras (leves ou humilhantes), passando pela reclusão carcerária (temporária ou perpétua) e trabalhos forçados nas galeras, até à sua excomunhão para que seja entregue às autoridades seculares e levada à fogueira.

Em determinado dia vestem-na de branco, uma longa camisola, e a obrigam a participar da procissão dos penitentes.
Durante o longo trajeto será açoitada duramente, até o sangue jorrar de suas costas.
Caindo, será obrigada a levantar e continuar caminhando.
Ao ser acorrentada novamente na sala de torturas, você estará suplicando pela fogueira.
Já não sabe quem é, não sente mais dores nem necessita de alimentos ou água.
Esqueceu do demônio do mar, do seu marido e dos seus filhos.
E enquanto testemunha sua subida para a fogueira, o juiz inquisidor dirá ao par:

“- Eu a condenei porque seus olhos destilam todos os perigos de amor e sortilégios! É a verdadeira tentação do demônio! Observe!”

No inicio do século dezessete houve um grande surto de feitiçaria basca.
Segundo Laura de Mello e Souza, a explicação veio do doutor Martínez Isasti, em sua Relación, que afirma:

“Graças ao seu pacto com o diabo, as feiticeiras dizem o que se passa no mar e no fim do mundo; às vezes, são verdades, e outras são mentiras. Aconteceu-lhes dizer, no dia seguinte a um acontecimento, o que se tinha passado a cem ou quinhentas léguas de distância, e a informação era verdadeira. (...) É isto que impele tantas mulheres a se tornarem feiticeiras: desejam obter notícias de seus maridos e de seus filhos, que estão nas Índias, Terra Nova ou Noruega.”

Além do incrível poder de sedução sexual inerente às bruxas, capaz de transtornar para sempre a vida do mais casto dos homens, condição naturalmente presente naquelas pobres mulheres, mães e esposas de marinheiros, elas também podiam voar, como confessou aterrorizado o próprio juiz De Lancre.

Então, vemos as lindas mulheres portuguesas do Alto Minho, com seus braços imitando asas na dança chamada Carreço.
São mulheres cujos maridos estão ausentes e dificilmente retornarão para o lar.
Elas foram forçadas a aprender a sobreviver na solidão.
Tornaram-se fortes, voadoras, no sentido metafórico do termo.
Enquanto passeiam seus perfis altivos pelos meandros da dança, iluminados pelas chamas de uma fogueira especialmente acesa para animar a festa, estão seduzindo aos poucos homens presentes.
Talvez ao prefeito ou ao pároco.
E a festa evoca o tempo em que os homens pescavam bacalhau nos mares da Noruega, ou mergulha mais profundamente no passado, lembrando os bravos marinheiros que passavam anos explorando os mares desconhecidos, e que, a exemplo dos nativos de certas ilhas dos mares do sul acreditavam, equivocados, que a magia de segurança no mar era privativa do homem.
Se na Idade Média havia demônios especializados em afundar os navios, nos séculos dezesseis e dezessete as bruxas podiam interferir nos seus percursos.


Também em terras brasileiras a Inquisição andou promovendo seus Autos de Fé.
É o tema principal do trabalho de Laura de Mello e Souza. Inúmeros sortilégios ligando a feitiçaria à navegação são narrados pela pesquisadora.
Para quem tiver interesse maior no assunto, recomendo seu livro, já citado anteriormente.
Mas não resisto à tentação de reproduzir o feito de Maria Teresa Ignácia.
Era ela a feiticeira portuguesa que atuava com o apelido de sóror Maria do Rosário.
Foi procurada por uma mulher que se queixava da ausência prolongada do marido.
A feiticeira ouviu as queixas e decidiu ajudá-la.
Juntamente com umas amigas e o demônio, foram até a Índia em figura de corvos, achando o tal homem doente numa cama.
Puseram-no numa embarcação e o trouxeram pelos ares até a casa de sua mulher, depositando-o na porta.
Feito assombroso, sem dúvida.
Ninguém poderia voar, diziam os inquisidores.
Somente Deus ou os demônios.
Ou, quem sabe, alguém que houvesse feito um pacto de sangue com Satanás.
Imagine agora, querido leitor, nossa amiga sóror Maria do Rosário, uma pobre mulher tomada por certas alucinações, acorrentada a uma roda de navalhas que lhe trespassavam as carnes, chicoteada, tendo os ossos dos dedos quebrados por pinças de ferro fundido, as unhas arrancadas e duramente interrogada por luminares da Inquisição, até confessar que realmente transformara-se em corvo e voara do Brasil em direção às Índias, em busca do marido da outra mulher.
Se confessasse, seria condenada à morrer na fogueira, e se morresse durante o interrogatório, teria igualmente queimado o seu corpo.
Se não confessasse, era certa a tortura, até fazê-lo.


Mas como poderia sóror Maria do Rosário provar que a acusação que lhe fora imputada era falsa?
A lei canônica dizia: além de Deus ou o Diabo ninguém pode locomover-se voando através do ar.
A não ser, é claro, que houvesse pactuado com o Demônio.
Ou seja, era crença da Inquisição que alguém que houvesse pactuado com o Diabo, vendendo a alma, poderia transformar-se em corvo e voar.
Ou, falseando, alguém que houvesse pactuado com o Diabo não poderia voar, nem se transformar em corvo.
Nem uma, nem outra coisa poderia ser provada empiricamente.
Talvez atirando sóror Maria do Rosário do alto de uma torre e observando para ver se ela voava ou não.
Na pior das hipóteses era uma tautologia: nem a Inquisição podia provar que ela voara, nem ela teria condições de mostrar que não voara e nem seria capaz de voar.
Por outro lado, era acusada de pactuar com o demônio, ou seja, havia vendido a alma.
Porém como poderiam as mulheres negociar as almas com o demônio, em pactos diabólicos, se Santo Agostinho provara, decididamente, que as mulheres não possuíam alma?
Por sua vez, o respeitado São Tomás de Aquino apresentara argumentos suficientes para recomendar que as mulheres fossem tratadas como escravas..

“... a mulher está submetida ao homem pela fraqueza de seu espírito e de seu corpo...”

O assunto foi levado mais longe durante o século doze:

“O homem, mas não a mulher, é feito à imagem e à semelhança de Deus. Dai resulta claramente que as mulheres devem ser submetidas a seus maridos e devem ser como escravas...”

Porém as fogueiras da Santa Inquisição, ao queimar mulheres que por ventura houvessem feito pacto com Satanás, vinha confirmar a existência da alma!
A alma que elas tinham negociado!
Ao mesmo tempo carimbavam a certeza do livre-arbítrio, que as levava a agir como agiam, afastando-as da condição de escravas do homem.
Na verdade, o âmago da questão não era esse.
Tratava de milhares de mulheres, mães, esposas, irmãs e filhas que esperavam notícias dos seus homens, maridos, pais, irmãos ou namorados que tinham embarcado em busca do desconhecido e que, anos depois, ainda não haviam dado notícia de seus paradeiros.
O mais provável é que estivessem mortos.
Ou não?
Como poderia a esposa, já desesperançada, lançar-se na aventura de um novo amor, e os havia, sem a certeza de que seu marido não emergiria das águas salgadas para reclamar o lugar que lhe cabia por direito?
Note, amigo leitor: não havia telegrama, nem radio, nem televisão, nem pombo-correio capazes de trazer notícias de lugares tão longínquos e na mais das vezes, desconhecidos.
A solidariedade feminina manifestada através dos feitiços, adivinhações e sortilégios, por mulheres sensíveis que percebiam a aflição e o desespero de suas amigas e vizinhas resultou na mais implacável e intolerante perseguição religiosa jamais intentada em todos os tempos.
Eram mulheres desamparadas, solitárias e confusas as vítimas da Inquisição, que as vendo desprotegidas de seus homens, queimavam-nas em fogueiras e acrescentavam ao patrimônio da igreja e dos inquisidores as pobres casas e terras agrestes.
A prática foi combatida pelo padre Antônio Vieira, um brasileiro que sofreu, mais tarde, duro golpe aplicado contra ele pela própria Inquisição.

É bem verdade que a tradição popular em diversas regiões da Europa atribuía, muitas vezes, às velhas senhoras que viviam sozinhas, a pecha de bruxas.
Feiticeiras, em Portugal, streghe, na Itália, sorcières, na França, e assim por diante.
Acreditava-se piamente que elas tinham por objetivo sugar o sangue das criancinhas, provocando-lhes a morte e eram dotadas de poderes estranhos, e estas crenças comuns no sobrenatural forneciam ampla base de operações para os Tribunais de Inquisição, justificando-os diante da opinião pública.
A ideologia popular da bruxaria certamente influenciou e foi influenciada por modelos aceitos pelas classes dominantes (laicas e eclesiásticas) durante a mobilização coletiva contra o “mal”, ocorrida na época da Inquisição, denominada “caça as bruxas”.

Geralmente as histórias narradas sobre as bruxas não fluem da observação direta do narrador, mas provém de uma série de episódios referentes ao âmbito familiar ou das amizades.
Assim, falava-se muito sobre o vôo noturno das bruxas, por si mesmas ou utilizando vassouras ou cavalos deixados nos estábulos como veículos para suas locomoções aéreas.
As bruxas podiam, igualmente, transformar-se em animais, durante a noite.
Outro ponto importante freqüentemente abordado era sobre a descoberta, por um membro masculino da família, que uma das mulheres, insuspeita, membro do grupo familial, era na verdade uma bruxa.
Podia muito bem ser a cunhada.
Estranha atração sexual pelas cunhadas, que por tortuosos caminhos levava os homens a denunciá-las a Santa Inquisição, imputando-lhes a pecha de feiticeiras!
Horrenda compulsão quando examinada à luz do terror demonstrado pelos grandes inquisidores diante da frase de um deles ao seu par:

“- Eu a condenei porque seus olhos destilam todos os perigos de amor e sortilégios! É a verdadeira tentação do demônio! Observe!”

Por outro lado, durante os séculos focalizados, era grande a mortalidade infantil provocada certamente por causas naturais, como a desnutrição decorrente da fome e da miséria imperante.
Entretanto aceitar a causa da morte como natural em razão dos pais serem incapazes de melhorar as condições de vida da família, era dar um golpe no sistema de segurança psicológica da comunidade.
Era mais confortável para as mentes culpadas aceitar o horizonte mágico no qual achava-se inserida a crença na bruxaria, procedimento que certamente permitia ao indivíduo subtrair-se às crises psicológicas e morais decorrentes dos prematuros falecimentos.
Procurava-se, sempre, no pequenino cadáver, mostras ou sinais de vampirismo.
E o procedimento alimentava e se justificava cada vez mais nas crenças em tais criaturas malignas.
Aceita a realidade da bruxa, aceitava-se igualmente o feitiço, o mau-olhado, o encantamento.
Crenças mágicas e religiosas que ainda nos dias de hoje, dominados pelo racionalismo, continuam a manifestar notável vitalidade e um profundo enraizamento.
Entre tantas outras privações, colocá-las ao alcance da Inquisição punitiva foi o legado que o marinheiro deixou para sua família, enquanto em toscas embarcações enfrentava a fúria de Bóreas e abria para os países que mantinham frotas desbravadoras o caminho para imensas fortunas em ouro, prata e novas terras.
Entretanto o furor inquisitório voltava-se, inegavelmente, contra os judeus e os hereges.
Em Portugal ficou célebre a fogueira que queimou o dramaturgo Antônio José da Silva, o judeu.
A Inquisição do século XVI derivou dos tribunais religiosos estabelecidos em certos países que durante a Idade Média perseguiam e condenavam os hereges..
O concílio de Verona (1183) estabeleceu as bases da Inquisição ao ordenar aos bispos lombardos a entrega à justiça dos heréticos que recusassem conversão.
Tornou-se instituição poderosa na Itália, Espanha e em Portugal.
O caso mais grave de desrespeito aos direitos humanos deu-se em Veneza, quando o Tribunal Eclesiástico da Inquisição transformou-se em Tribunal da Inquisição de Estado, composto por
três membros que tinham direito de vida e de morte sobre qualquer cidadão.

Saindo desse período sombrio, iremos comemorar, em 8 de março, as conquistas femininas já alcançadas, e almejar novas e alentadas realizações daqui para frente.

Larry Coutinho

Referências para saber mais: 1. Souza, Laura de Mello e - O Diabo e a Terra de Santa Cruz - Ed. Companhia das Letras 1966. 2. Mello, Pedro Homem de - Danças Portuguesas. Ed. Lello & Irmão - Porto -1962. 3. Kramer, Heinrick e Sprenger, Jaconus - Malleus Maleficarum (Manual de Caça às Bruxas) Ed. Planeta - dezembro de 1976 - São Paulo. 4. Skocic, Veridiana Aderaldo - Cultura popular e práticas mágicas - O exemplo da Itália. UFRJ.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O mistério das moedas dobradas - Crônicas da cidade plural



Sobre insignificâncias lucrativas

Depois da briga no Pelourinho, Ernesto Anglicano experimentou a cadeia baiana.
Um inferno superlotado.
Entretanto conseguiu fazer amizade com certo preto velho que ao ser conduzido para uma prosa maluca sobre a vida secreta dos objetos, não só compreendeu Ernesto, como também lhe falou sobre as moedas dobradas do Pelourinho.
-Estão, todas elas, num buraco do muro da igreja de São Francisco. Naquela mata que fica atrás da igreja. Dá pra ver a cavidade pela janela da sacristia...
-Como foram parar lá?
-Dádivas dos peregrinos! As moedas eram dobradas e perdiam o valor de compra. Embora fosse crime de lesa-majestade danificar o dinheiro. As moedas que estão guardadas naquela cavidade e em outros lugares da Bahia são de prata, cobre e até mesmo de ouro ... perderam o valor como moedas, porém restou o valor do metal...
Ernesto Anglicano tinha conhecimento do costume medieval de sacrificar moedas para oferecê-las aos Santos, aos Anjos ou ao Espírito Santo, corrente na antiga Inglaterra.
Ele mesmo havia encontrado moedas de prata dobradas, na torre de Glastonbury e sabia que centenas delas tinham sido retiradas de riachos e poços sagrados.
Então lembrou que na sua juventude costumava colocar moedas nos trilhos dos bondes que subiam a rua Pamplona, em São Paulo.
Depois da passagem do pesado veículo, o grande desafio era o de encontrar as moedas dobradas, que às vezes saltavam para longe e costumavam desaparecer por entre as frinchas dos paralelepípedos.
Um inglês que havia comprado um lugar para sentar no chão da cela resolveu meter o bedelho na conversa.
O preto velho aproveitou para perguntar:
- Porque você foi preso, compadre?
- Alguém colocou alguma porcaria na minha bagagem de mão. Fui preso antes mesmo de subir no avião. Como você sabe, sou inocente.
- Aqui nesta cela não tem ninguém culpado! Arrematou Ernesto Anglicano, farejando proveitosa revelação.
- Na Inglaterra, mais precisamente em Yorkshire, onde se fabricava manteiga, as operárias dos laticínios costumavam manter uma moeda dobrada à mão, para o caso do creme obstinar-se em não virar manteiga. As moedas dobradas eram conhecidas como “talismãs da nata”. Também a literatura elisabetana está repleta de moedas dobradas, oferecidas às senhoras como prova de amor. Eram as famosas “moedas de quatro pences curvadas”.
- Não sei porque, quando eu penso em um tesouro, penso em moedas - lembrou Ernesto Anglicano - não consigo imaginar uma arca de piratas repleta com papel moeda!
- É verdade - lembrou o inglês - as moedas possuem uma espécie de sortilégio... Talvez devido ao metal em que são cunhadas...
- Hoje, aço inoxidável, bronze, latão ou alumínio - disse o negro velho - não valem muito!
- Porém, no passado, eram de ouro, prata ou cobre - acrescentou Ernesto Anglicano.
-As moedas de cobre, de quarenta réis, eram usadas na Bahia para tocar o berimbau - hoje desapareceram... esclareceu o preto velho, sem ser perguntado.
- Na Grécia antiga a alma de quem morria precisava atravessar o rio Estige para conseguir a paz no mundo inferior. Só havia um jeito: utilizar os serviços do barqueiro Caronte. Que cobrava a passagem em dinheiro corrente. Assim eram colocadas moedas na boca e nos olhos dos mortos... - o inglês revelava certa erudição.
-Você conhece bastante sobre moedas! Admirou-se Ernesto Anglicano.
- É que vivi delas por certo tempo - explicou o inglês - assim como ganhei muito dinheiro com o chamado “ouro velho”!
- O ouro envelhece? Perguntou o preto velho.
-Só na cabeça das mulheres - e o inglês riu.
- Como é que você ganhou dinheiro com moedas?
- Moedas tortas, perfuradas, desfiguradas ou com danos de qualquer natureza parecem ter perdido o valor de compra. Eu as trocava e pagava um centavo por qualquer uma delas. Depois as levava a um Banco. Ao recolher as moedas, o Banco fornecia um recibo. Depois de examinadas pelo Banco Central, as moedas danificadas eram destruídas e eu recebia o ressarcimento ... quase sempre pelo valor real das moedas! Algum tempo depois, eu percebi a fascinação que as moedas revelam pelas fontes, poços, cavidades inundadas...
- Por exemplo, a Fontana de Trevi? Ernesto Anglicano tentou adivinhar.
-Exatamente. Por alguma obscura razão as moedas levam os seres humanos a atirá-las nesses locais. São oferendas votivas. A prática pode datar à Idade de Bronze, quando certa deterioração climática fez com que os deuses do céu e da terra fossem substituídos por divindades aquáticas...
-Iemanjá! Exclamou o velho - nas viradas dos anos os baianos atiram quantidades assombrosas de moedas nas águas do mar, oferendas à rainha das águas, Dandalunda...
- Houve época, em Ubatuba, que eu fazia o mesmo - lembrou Ernesto Anglicano - certa passagem de ano, precisando de sorte, atirei nas ondas quantidade absurda de moedas...
-E deu certo? Interessou-se o inglês.
- Não. E no ano seguinte voltei, procurando recuperar algumas das moedas atiradas, em vão...
- Ouça - prosseguiu o inglês, eu estava em Londres quando a a velha Ponte de Londres era desmontada para ser levada para o Arizona. Então descobri que o leito do rio Tamisa, sob a ponte, estava atulhado por moedas imperiais. Consegui apossar-me de uma centena delas e as vendi, lentamente, em leilões de antiguidades. Com o resultado obtido consegui viver confortavelmente durante cinco ou seis anos. Também consegui vinte moedas com a efígie de Antonino Pio, do século dois, ano do Senhor, retiradas do poço celta dedicado à ninfa Coventina...de posse dessas informações e conhecimentos, quando cheguei ao Brasil, instalei alguns poços dos desejos em diversos shoppings centers. Consegui viver da coleta das moedas, até que fui denunciado por funcionários que desejavam o botim para eles. Depois houve aquela inflação galopante. O dinheiro que na véspera podia comprar, por exemplo, uma bicicleta nova, no dia seguinte mal dava para um maço de cigarros... uma moeda de cinqüenta centavos valia menos do que o seu peso em metal...troquei papel moeda por moedas pelo insignificante valor nominal, arranjei maquina que as furava no centro e passei a vender as moedas pelo dobro do valor, como arruelas para oficinas mecânicas ... Finalmente apareceu aquela porcaria na minha mala de mão e aqui estou eu...
-Ernesto Anglicano! - chamou o carcereiro.
Antes de atender ao chamado, Ernesto Anglicano passou um cartão de visitas ao inglês.
-Procure-me, quando sair daqui. Quero saber porque as pessoas dobram as moedas...e como, pois não é fácil dobrá-las!

(Trecho retirado do conto A Associação, in Ciprestes, casuarinas e riachos, de Coutinho, Larry)

Larry Coutinho

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Ministros, da corrupção, dos delitos e das penas - Crônicas da cidade plural

- A palavra corrupção - ensinou o professor Benjamim Silvano - do substantivo latim corruptione, é uma espécie de palavra-ônibus, que carrega em seu interior boa quantidade de significados diversos. Pode ser decomposição, putrefação, devassidão, depravação, perversão, e suborno ou peita, quando aplicada no sentido de ato ou efeito de corromper...
Giselda Monti interrompeu a brilhante dissertação:
- Mas o que significa corromper, professor?
- Quanto à palavra corromper - do latim corrompere - tratando-se de verbo, seus sinônimos sempre pedem um agente, humano ou natural, homem ou calor, por exemplo. O calor corrompe certos alimentos: torna podre, estraga, decompõe, o ser humano corrompe seu semelhante indiretamente, através de artifícios como alterar, adulterar, ou diretamente, quando perverte, deprava, vicia, suborna, peita, ou compra. O fato parece desconhecido dos moralistas, pois opondo-se à pessoa que compra, está a pessoa que vende. E vice-versa.
A douta observação partiu, naturalmente, do professor Benjamim Silvano.
Nossa modesta crônica não vai além da sala de aula nem dessas duas ações, comprar e vender.
Engana-se quem quiser atribuir outra intenção qualquer.
Tratam-se de pequenos jogos, bastante praticados desde que o mundo é mundo.
Sendo advertência razoável, íamos seguir escutando o brilhante professor, quando Giselda Monti voltou à carga:
- No universo da venda e da compra, como surgiu a palavra camelô?
- Parece que originou-se do francês camelot... - seguia a explicar o professor, quando o cearense Severino resolveu complicar:
- Diabos! Em francês a palavra serve para designar um certo tipo de tecido - conhecido também em português por camaleão - e o camaleão é animal propriamente dito, cuja lenda pessoal afirma poder assumir as cores das superfícies por onde anda, permanecendo quase invisível, graças ao fenômeno chamado mimetismo. Camelô, outrora, tratava-se de mercador ambulante, que vendia nas ruas, em geral nas calçadas e praças, bugigangas e quinquilharias, apregoando-as de modo característico, típico e pitoresco...
O professor Silvano resolveu prosseguir dali mesmo:
- Quando o indivíduo era vendedor de mercadorias ordinárias - no sentido da má qualidade - os franceses utilizavam o substantivo camalotier. Transpondo a palavra para a exigência de agente, ela era transformada em verbo, a indicar ação, e a expressão era camaloter, que significava, freqüentemente, fabricar mercadorias ordinárias...
O paranaense Telmo resolveu entrar nas explicações:
- Não sei quando a palavra camelô invadiu as nossas ensolaradas praças. Minha avózinha querida os chamava de bufarinheiros. E assim, de repente, sobem-me à cabeça certas recordações da infância, friorenta e sossegada, nos arrabaldes de Curitiba...
O professor Benjamim Silvano examinava as próprias unhas da mão esquerda aparentemente enlevado, voando sustentado pelos dois assuntos que o preocupam como se fossem tapetes mágicos.
Telmo aproveitou para resvalar de rumo e dissertar por onde lhe convinha.
Ei-lo em Curitiba, final dos anos trinta.
Segundo ele o polaco da lenha entregava achas e troncos praticamente todos os dias, pois o grande fogão de oito bocas que aformoseava a enorme cozinha era devorador guloso da madeira seca.
Padeiro e leiteiro surgiam diariamente, madrugada ainda.
O verdureiro, que abastecia a casa com verduras, legumes e frutas aparecia uma vez por semana.
Outros vendedores ambulantes surgiam e desapareciam aleatoriamente. Eram velhos que tangiam cabras e ofereciam leite fresco tirado na hora, que era bebido temperado com açúcar e canela; judeus envelhecidos prematuramente - a primeira guerra mundial mal terminara - que compravam e vendiam roupa usada, e gritavam o pregão: - Comp’a’ropa! além de pipoqueiros, sorveteiros, vendedores de carvão, de redes nordestinas batidas em tear manual, esses últimos vendedores eram raros, porque não conseguiam suportar os meses frios de Curitiba, e Telmo pretendia seguir com todo o elenco, extravagante e curioso para os dias em que estamos tentando sobreviver, repletos de tecnologia e invenções estonteantes.
- Os bufarinheiros eram especialistas em acender desejos secretos - interrompeu Severino, tentando compreender se houvera alguma intenção ofensiva nas palavras de Telmo - eles eram mestres em criar compulsões de compra e lidavam com a imponderável curiosidade, na minha modesta opinião, a mais sedutora das fraquezas femininas, o sentimento que as faz, desde assistir novelas na televisão até trair o marido com o melhor amigo dele. Dizem que é paixão, amor, desejo, porém discordo do que dizem: é somente curiosidade...
- Que é que tem? reclamou Gisela Monti - como toda mulher, eu também gosto de comparar...
Severino lançou um olhar de desprezo e prosseguiu:
- Pois bem, os bufarinheiros carregavam uma caixa de pinho, chata e quadrada, e dela tiravam, como em passes de mágica, agulhas de bordar ou de tricotar, dedais, linhas coloridas, esbeltas ou grossas, lenços finos de cambraia e enormes lenços de seda para amarrar à cabeça, enfeitando com seus desenhos múltiplos e coloridos, coleções de sabonetes, com diversos formatos e inúmeros aromas diferentes... era um universo de quinquilharias e de bugigangas que o astuto vendedor ambulante fazia surgir das entranhas daquela caixa mágica, cheia de mistérios maravilhosos...
Telmo, aborrecido com a intervenção, sussurrou para Giselda Monte, alto o suficiente para ser ouvido por todos:
- Esse cearense, para mim, é veado ...escute só: caixa mágica cheia de mistérios maravilhosos...- imitou o colega, que se calou, vermelho de indignação.
Giselda Monti sorriu e concordou prontamente.
Manoel, quase sempre calado, sentiu pruridos de conferencista e desabou:
- A avó da minha mulher, tripeira da cidade do Porto, os chamava de adeleiros. Impropriamente, segundo a minha outra avó, a brasileira. Para ela, adeleiro era aquele comerciante que só comprava e vendia trastes usados. Também respondia pela denominação de bufarinheiro, porém era mais propriamente designado como adelo, merca-tudo, ferro velho, bricabraquista, roupavelheiro, zângano... se bem que zângano, termo derivado do espanhol zángano, utilizado também como sinônimo de adeleiro, na verdade expressava certa tendência explicita para a desonestidade. Não era vendedor de gatos por lebre, como o adelo, tratava-se, isto sim, de parasita, fraudulento e agiota desonesto. Agia como agente de negócios particulares, ou preposto de corretores. Dele derivou o termo zangão, tão utilizado injustamente em certas bolsas de valores oficiais... porém em Portugal, o termo adeleiro significa o mesmo...
- Como o mesmo? - irritou-se Severino.
- Bem, o mesmo ...veado, paneleiro, adamado, adeleiro...
- Ó Manoel, acho que...
Vendo o lado para onde caminhava o andor o professor Benjamim Silvano habilmente trocou de assunto:
- Na minha infância, cheguei a negociar com compradores de jornais já lidos, garrafas e ferro velho. Quando transferimo-nos para São Paulo - na época eu não mudava sozinho para lugar algum, daí o plural - soube que tais negociantes eram conhecidos como garrafeiros. Ainda hoje infernizam a cidade com suas enormes carroças, nas quais as bestas e os cavalos foram substituídos por homens e mulheres, alguns deles e algumas delas nordestinos em busca de melhores oportunidades na vida ...
- A aula, hoje, está de amargar... - queixou-se Severino.
- ...melhor para eles seria se permanecessem no único deserto habitado do mundo, a ingerir sopa de palma, na hipótese da existência de líquido para diluir o caldo, prosseguiu, inocentemente, o professor Silvano - não vai aqui nenhuma sugestão racista: trata-se de sensato conselho de quem já viveu e percebeu a dureza da vida nas ruas da capital paulista...
Pela primeira vez atuando com sensatez, Giselda Monti tentou reconduzir o debate:
- E sobre os Ministros, quando falaremos?
- Já estamos! exclamou o Manoel.
- Não! Estamos falando de compra e venda!
- Pois não é o mesmo? O rude bom senso de Manoel revelou-se novamente.
Até então calado, o Aurélio Antônio de Albuquerque e Souza resolveu meter a colher:
- Olha aqui, gente. Não sei como vocês conseguem viver as suas vidinhas medíocres sem casa em Angra dos Reis. Nossa família tem uma em Angra e outra no porto Bracuy. Ambas com píer voltado para o canal. onde podemos ancorar os veleiros e as lanchas...
- Oh! Aurélio Antônio! Não venha tripudiar sobre a nossa miséria endêmica - exclamou o Severino, ofendido por não possuir casas em Angra - estamos falando de Ministros...
- Pois é - retrucou o Aurélio Antônio - Ministros! As casas em Angra foram compradas pelo meu bisavô, quando foi Ministro do Jango...
- Chega! berrou o professor Silvano.
Sem dar importância ao destempero do professor, o cearense Severino insistiu no assunto.
- Olhem aqui! Um homem passa toda a vida na mediocridade financeira, ganhando alguns salários-mínimos por ano! De repente, notabilizado pela política, ei-lo Ministro! O pobre homem, que vendia rapaduras, imediatamente toma posse e vai conferir o que poderá vender...
- Só porque sete ou oito Ministros andaram vendendo o que não deviam... ia atalhar a Giselda Monti, quando foi interrompida pela campainha a indicar o fim da aula.
Escondendo os seios fartos Giselda abotoou a blusa e para decepção dos homens presentes juntou seus livros e desapareceu no corredor, deixando no ar um aromazinho safado de almíscar selvagem.

Larry Coutinho