Sozinho em São Paulo na chuvosa noite de janeiro eu janto no Posílipo, cantina que não existe mais.
Que pena!
Depois pego o automóvel estacionado ali perto e desço em direção ao Largo da Banana.
Vou atrás de samba, capoeira ou feitiçaria...
Já não é mais um lugar onde estacionavam as carroças, e depois delas, ponto de encontro dos capoeiristas, dos sambistas, dos seresteiros...
Também ainda não é o lugar onde será construído o Memorial da América Latina.
É o Largo da Banana vigente nos primeiros anos da década de sessenta.
A Barra Funda, o Bexiga e a Baixada do Glicério são três dos principais redutos de ex-escravos vindos do interior do estado - ah! a rua Sinimbu! Entrou em minha vida sem pedir licença. Depois eu conto.
Com os escravos recém-libertos, no início do século vinte, chegou o samba rural, as serestas, uma espécie de jogo de capoeira que chamam de tiririca, a umbanda e o candomblé.
Na Barra Funda existiam os casarões da antiga classe média dos fazendeiros de café, que a crise de vinte e nove transformou em cortiços.
Local de venda dos cachos de banana trazidos do litoral pelas gaiolas dos trens a praça tomou naturalmente o nome de Largo da Banana.
Nas noites garoentas de outrora, quando as carroças distribuidoras do produto deixavam a região, era chegada a hora dos sambas, das serestas, da capoeira, da umbanda, do candomblé.
Endereço no bolso eu sigo em busca de um terreiro.
Se correr estarei lá a tempo de assistir ao candomblé, numa sala que fica em edifício de escritórios.
Chego bem na hora.
Subo correndo a empinada escada que leva ao primeiro andar.
Logo depois da minha entrada um rapaz com um giz escolar na mão traça um ponto escrito no cimento, em frente à porta.
Intrincado desenho! É um poderoso ponto escrito.
Ninguém entra ou sai antes do fim dos trabalhos.
O terreiro está fechado para o culto.
Homens de um lado e mulheres do outro, todos em pé.
Escrivaninhas, cadeiras, arquivos, máquinas de escrever, tudo amontoado no fundo.
De dia, a sala serve de escritório, de noite, é terreiro!
Cruzo os braços e imediatamente diversas vozes protestam:
- Está quebrando a corrente!
Desafiador, verifico a massa indignada.
Sou minoria étnica, por isso abaixo os braços, deixando-os paralelos e rentes ao corpo.
Começa a corimba.
Os atabaques rufam.
Uma voz grossa, de homem, vinda de algum lugar:
- Quem é de boa noite, boa noite. Quem é de abença, abença!
O povo responde em uníssono.
O agogô se junta aos atabaques.
E todos cantam o Exu da Porteira:
“Portão de ferro tá virando de madeira,
Portão de ferro tá virando de madeira.
Exu, toma conta,
Exu, fecha a porta da porteira...”
Já sei que é uma sessão destinada a Exu e sua corte.
Desce a Pomba Gira e os tambores modificam o andamento.
Todos cantam a Pomba Gira:
“Pomba Gira, gira, gira,
Saravá, todo o povo na encruza.
Pomba Gira, gira, gira
Saravá, todo o povo na encruza.
Pomba Gira, ô, ô, ô,
Pomba Gira, e, e, e,
Ela é rainha
Da encruza de Te.
Ela é bonita
Bonita e caridosa...”
A Pomba Gira desce, me tira para dançar e depois implica comigo:
-Ocê num sabe dançá!
Vozerio indignado, até uma voz gritar:
- Sete encruzilhada!
Nova cantoria.
O ambienta esquenta.
Uma entidade fumando cachimbo dá consultas.
Pergunto sobre a Manuela, uma loirinha gostosa que trabalha comigo, e ela responde:
-Se o fio tá perguntano, é pruquê já sabe que ela num presta, né?
E segue adiante, atendendo à próxima consulta.
Finalmente o rapaz vestido de branco apaga o ponto escrito destrancando o terreiro.
Garoa, quando saio.
Procuro algum vestígio de atividade no Largo da Banana.
Quem sabe uma roda de samba, uma turma da tiririca , um solitário seresteiro?
Nada, ninguém...
A garoa se transforma em chuva miúda e eu caminho apressado, a procura do automóvel.
Larry Coutinho
São Paulo é um aglomerado de pequenas cidades do interior, às vezes até mesmo de aldeias de diversos países, que se juntam graças às avenidas que as ligam e sobra a impressão de ser uma única cidade colossal. Por sua vez, os pequenos bairros colocam-se em camadas diferentes do tempo. Alguns vivem no futuro, outros no século dezenove ... e cada um espia o outro!
quarta-feira, 29 de junho de 2011
sábado, 11 de junho de 2011
Por onde anda a fé dos paulistas? - Crônicas da Cidade Plural.





No estado de São Paulo, final do século passado, comecei a fotografar capelinhas de beira de estrada, percorrendo estradas vicinais, caminhos nas periferias das cidades do interior, picadas que morrem em porteiras sempre fechadas de grandes fazendas...
Minhas viagens tornaram-se raras, porém ainda continuo com a mania.
Essas capelinhas são pequenas.
Um ou dois metros quadrados, se tanto.
São utilizados pelas populações locais para a guarda de imagens quebradas de Santos, rosários que pertenceram a parentes já falecidos, crucifixos das mais variadas formas e tamanhos, cruzes provenientes de antigas capelas demolidas ou quebradas em túmulos, imagens impressas de Santos...
Enfim, muita coisa de grande valor devocional pode aparecer nos inventários, se forem minuciosos.
Geralmente fotografo a capelinha como aparece na paisagem, e depois o interior, procurando abranger todo o pio estoque que foi nela depositado.
Às vezes, algumas surpresas...
Em Pirassununga encontrei numa destas capelinhas convivendo harmonicamente com imagens de Nossa Senhora da Aparecida, de Santa Bárbara, de São Sebastião, e crucifixos de diversas formas, a massuda imagem da Escrava Anastácia quase sepultada por uma quantidade enorme de terços e de tocos de velas.
Aquele achado me conduziu naturalmente à ligeira pesquisa sobre a vida e a obra daquela pobre Anastácia, condenada a morrer de fome pela senhora da fazenda por haver roubado um doce.
Aplicada a mordaça de ferro e fechadas as algemas, a linda escrava de olhos azuis finalmente morreu.
E ficou a duvida natural.
Condenada pelo roubo do chocolate, ou talvez pelos ternos olhares que o senhor das terras lançava em direção à escrava?
Sem conseguir estabelecer se a história é real ou mítica, ficou o desejo, ainda não realizado, de aprofundar-me na busca da verdade.
Quem sabe não estará ali mais uma Santa brasileira?
Uma vez que as pessoas que rezavam por Anastácia, passaram a rezar para Anastácia.
E segundo a lenda ela promoveu curas milagrosas.
Ultimamente tenho encontrado capelinhas protegidas por grades de aço.
Os fiéis depositam as imagens dos Santos em frente à grade e periodicamente o cuidador abre a capela e as recolhe.
Então eu soube que a pilhagem é sempre muito grande.
Das capelinhas desprotegidas surgiram algumas valiosas imagens de Santos fabricadas na Europa nos séculos passados, e as chamadas “paulistinhas”, imagens muito antigas de Santos e Santas esculpidas em madeira, possivelmente a canivete, que alcançam preços fabulosos em lojas especializadas.
Para quem desejar ingressar neste agradável trabalho de busca e pesquisa, informo que o estado de São Paulo ainda oferece um prato cheio. É verdade que rareiam e em breve desaparecerão, porém ainda podem ser encontradas capelinhas, alminhas, cruzes de estrada, ermidas, oratórios, capelinhas em fazendas antigas, pequenos santuários, jubileus, e capitéis, que são oratórios, pequenas capelas onde se cultua a imagem de única Santa.
Ou mesmo nas grandes cidades.
De São Paulo cito o exemplo da Capela dos Aflitos, na Liberdade, ou do culto à Nossa Senhora da Cabeça, que já foram objeto de interesse deste blogue. Entretanto, ao encontrar uma capelinha abastecida com imagens e outros objetos religiosos, resista à natural tentação e somente tire fotografias e deixe orações.
Larry Ramos Coutinho ( junho de 2011)
Minhas viagens tornaram-se raras, porém ainda continuo com a mania.
Essas capelinhas são pequenas.
Um ou dois metros quadrados, se tanto.
São utilizados pelas populações locais para a guarda de imagens quebradas de Santos, rosários que pertenceram a parentes já falecidos, crucifixos das mais variadas formas e tamanhos, cruzes provenientes de antigas capelas demolidas ou quebradas em túmulos, imagens impressas de Santos...
Enfim, muita coisa de grande valor devocional pode aparecer nos inventários, se forem minuciosos.
Geralmente fotografo a capelinha como aparece na paisagem, e depois o interior, procurando abranger todo o pio estoque que foi nela depositado.
Às vezes, algumas surpresas...
Em Pirassununga encontrei numa destas capelinhas convivendo harmonicamente com imagens de Nossa Senhora da Aparecida, de Santa Bárbara, de São Sebastião, e crucifixos de diversas formas, a massuda imagem da Escrava Anastácia quase sepultada por uma quantidade enorme de terços e de tocos de velas.
Aquele achado me conduziu naturalmente à ligeira pesquisa sobre a vida e a obra daquela pobre Anastácia, condenada a morrer de fome pela senhora da fazenda por haver roubado um doce.
Aplicada a mordaça de ferro e fechadas as algemas, a linda escrava de olhos azuis finalmente morreu.
E ficou a duvida natural.
Condenada pelo roubo do chocolate, ou talvez pelos ternos olhares que o senhor das terras lançava em direção à escrava?
Sem conseguir estabelecer se a história é real ou mítica, ficou o desejo, ainda não realizado, de aprofundar-me na busca da verdade.
Quem sabe não estará ali mais uma Santa brasileira?
Uma vez que as pessoas que rezavam por Anastácia, passaram a rezar para Anastácia.
E segundo a lenda ela promoveu curas milagrosas.
Ultimamente tenho encontrado capelinhas protegidas por grades de aço.
Os fiéis depositam as imagens dos Santos em frente à grade e periodicamente o cuidador abre a capela e as recolhe.
Então eu soube que a pilhagem é sempre muito grande.
Das capelinhas desprotegidas surgiram algumas valiosas imagens de Santos fabricadas na Europa nos séculos passados, e as chamadas “paulistinhas”, imagens muito antigas de Santos e Santas esculpidas em madeira, possivelmente a canivete, que alcançam preços fabulosos em lojas especializadas.
Para quem desejar ingressar neste agradável trabalho de busca e pesquisa, informo que o estado de São Paulo ainda oferece um prato cheio. É verdade que rareiam e em breve desaparecerão, porém ainda podem ser encontradas capelinhas, alminhas, cruzes de estrada, ermidas, oratórios, capelinhas em fazendas antigas, pequenos santuários, jubileus, e capitéis, que são oratórios, pequenas capelas onde se cultua a imagem de única Santa.
Ou mesmo nas grandes cidades.
De São Paulo cito o exemplo da Capela dos Aflitos, na Liberdade, ou do culto à Nossa Senhora da Cabeça, que já foram objeto de interesse deste blogue. Entretanto, ao encontrar uma capelinha abastecida com imagens e outros objetos religiosos, resista à natural tentação e somente tire fotografias e deixe orações.
Larry Ramos Coutinho ( junho de 2011)
quarta-feira, 28 de julho de 2010
O Teatro Municipal vai fazer 100 anos - Crônicas da cidade plural
Noites e manhãs no Teatro Municipal de São PauloUm belo dia o meu sogro por artes do então Prefeito Adhemar de Barros acordou Secretário Municipal da Cultura.
Pensei que o fato em nada modificaria minha rotineira vidinha de recém casado, trabalhador da indústria automobilística.
Ledo engano!
Provindo de plantadores de café no oeste paulista - até mesmo um município tomou o nome da família, adotando a pudica adição de um nópolis no final - ele participara, no início do século vinte, a partir de 1903, da campanha pela construção do Teatro Municipal de São Paulo e contribuíra com dinheiro próprio para ajudar a trazer da Europa, nas festas de inauguração de 1911, o barítono Titta Ruffo e outras divas de bel-canto, que se esmeraram na ópera Hamlet, de Ambroise Thomas.
E eis que, quarenta anos depois, com uma penada do Prefeito e a correspondente publicação no Diário Oficial, a Secretaria da Cultura e por extensão o Teatro Municipal de São Paulo caíram inteirinhos nas unhas!
Arregaçou as mangas e começou a trabalhar.
Enquanto isso, os funcionários do Teatro limpavam e poliam o belo camarote do Secretário da Cultura, só ultrapassado em luxo pelo camarote do lado direito, mais suntuoso, que era o do Prefeito.
Como o Adhemar foi prefeito de São Paulo entre 8 de abril de 1957 e 7 de abril de 1961, fica determinado o tempo da ação desta crônica.
Na época a cidade de São Paulo vivia raro esplendor cultural.
A Biblioteca Mario de Andrade não só recebeu este nome como também foi reformada neste período.
O teatro paulista estava no auge, com o TBC e outros cometimentos de envergadura. Grandes atores, cenógrafos, diretores, iluminadores surgiam do nada.
A quarta Bienal de São Paulo, de 1957, exibia e mostrava para os paulistanos a pintura de pingos e borrões de Jackson Pollock.
Em 1959, houve a quinta Bienal, e a ofensiva tachista.
Em 1961, já sob o comando da Fundação Bienal, houve uma retrospectiva de Alfredo Volpi, pois aumentava a participação dos brasileiros na mostra, que tinha como estrela, naquele ano, Kurt Schwitters.
Entre 1950 e 1960, o número de assentos disponíveis nos cinemas da cidade de São Paulo cresceu quarenta e dois por cento.
Enquanto isso, na Secretaria Municipal da Cultura, o endiabrado do meu sogro conseguia subvenção para realizar a temporada lírica do Teatro Municipal, uma espécie de tradição paulistana.
Pois a São Paulo da época congregava uma absurda quantidade de imigrantes europeus, desdobrados em grandes famílias binacionais, ou seja, ítalo-brasileiros, franco-brasileiros, luso-brasileiros, etcétera e tal.
A preponderante população italiana andava nostálgica da ópera napolitana, lembrando constantemente de Alessandro Scarlatte e de Joseph Haydn, que apesar da origem austríaca foi o principal compositor da escola napolitana de ópera (vinte e seis óperas que não são mais encenadas).
No início do século vinte, a sociedade paulista tinha formação patriarcal-rural, vocacionada para a cultura européia e, por extensão, à ópera.
Assim, a ópera, que justificou e impulsionou a construção do Teatro Municipal da cidade, era prioridade absoluta.
Vindo de certa batalha política entre o Estado e o Município, o Teatro Municipal foi fechado para “reformas” em 1954, deixando o Balé do Quarto Centenário sem ter onde se apresentar.
Reaberto em 1955, dois anos depois o Municipal ainda estava em obras e os recursos eram escassos.
Nada que fosse obstáculo para o afã dinâmico do novo Secretário da Cultura.
Os inimigos davam de ombros e afirmavam:
-Vassoura nova varre bem!
O novo Secretário, varrendo bem, convenceu o Prefeito a emitir títulos da divida pública e conseguiu o dinheiro necessário para concluir a reforma do Teatro Municipal.
Percebendo que o Teatro passara por reformas porque era mal cuidado e sem manutenção decente, fez o que estava ao seu alcance: criou o cargo de Encarregado Geral dos Equipamentos.
.Enquanto tratava com a Lina Bo Bardi do projeto e da construção do novo Museu de Arte de São Paulo (Embaixador Assis Chateaubriand), em cima das ruínas do velho Trianon, o Secretário Municipal da Cultura tratava da temporada lírica.
E foi aí que ele me pegou.
Anos antes, em 1955 eu namorava minha futura mulher durante as apresentações de Traviata, Aida e La Boheme, e éramos peões acomodados nas torrinhas do Teatro Municipal, porque os recursos pessoais, escassos, não permitiam poltronas mais aprazíveis.
Também freqüentávamos o Teatro de Cultura Artística, onde eu era sócio e não pagávamos nada.
O cego e genial Ruben Varga no violino, Fritz Iank no piano, destrinchando as trinta e duas sonatas de Beethoven, Andrés Segovia ao violão, mostrando como se toca...e outros iluminados, tipo Yehudi Menuhin, o violinista norte americano...
As soirées no Teatro de Cultura Artística levavam, fatalmente, ao jantar no Giggeto, nas proximidades.
Em 1958, quando nasceu o nosso primeiro filho, e já sob o domínio do sogro-Secretário, cumprindo a agenda e consultando a coleção de folders referentes ao Teatro Municipal de São Paulo, posso informar: foram sete óperas completas, pouco conhecidas, que assistíamos em silêncio, ao abrigo do camarote do Secretário Municipal da Cultura.
Em 1960 as óperas foram também sete: Miles Gloriosus - Bertoldo Acorte - La Gistizia - e, mais conhecidas, Rigoleto - Lucia de Lammermoor - La Traviata e La Boheme.
Porém não só de óperas vivia o Teatro Municipal.
Esteve por lá a Comédie Française, que fazendo juz ao apelido de Maison de Molière, apresentou uma série de obras do dramaturgo.
Assistimos também ótimas apresentações de balé.
Numa delas- talvez a do Bolshoi - pela primeira vez percebemos um certo movimento no camarote do lado, o do Prefeito, que habitualmente permanecia deserto.
Era a bailarina Marilu Torres (hoje festejada jornalista), que, ao me ver no Teatro, arregalou os lindos olhos (os quais, normalmente, só fitavam o Newton Travesso - ó ciúme miserável que me ataca de vez em quando!) e perguntou, espantada: - O que é que você está fazendo aqui?
Ela estava representando o Prefeito.
Ela tinha sido colega de classe. No Colégio Bandeirantes.
Mas o que queria mesmo era ver ao balé.
Os anos passavam e meu sogro-Secretário ia muito bem.
Eu e a minha mulher assistíamos tudo o que fosse possível assistir, sabendo que eram oportunidades raras.
Havia também algum exibicionismo e um certo gosto pela monumentalidade.
Não lembro quando, e se era um espetáculo ou a cerimônia de entrega de prêmios, ou coisa que o valha. O fato é que a praça Ramos de Azevedo foi inteiramente esvaziada e cercada por cordas. Na escadaria do Teatro, a Banda, talvez da Guarda Civil, em uniforme de gala.
Entrava-se pela calçada do Mappin, onde havia uma pequena passagem entre as cordas.
Mostramos os pergaminhos, pois assim eram os convites pessoais e intransferíveis e enveredamos por ali.
De repente, vimo-nos sós no meio da praça vazia.
Então e imediatamente a Banda atacou o Hino Nacional Brasileiro que só cessou quando entramos no Teatro.
Foi gloriosa a travessia dos cento e cinqüenta metros da praça se tanto, culminando com a deliberadamente vagarosa subidas dos degraus...exibição para a enorme platéia popular que se comprimia além das cordas...
Outro casal de convidados passou pelas cordas e a Banda atacou novamente...
Estava fazendo isso com todos os convidados que atravessavam a praça em demanda ao Municipal.
Entretanto, a agitação não acabava no fim dos espetáculos.
Muitas vezes prolongava-se noite adentro, em restaurantes, bares ou boates.
Durante as apresentações, o camarote do Secretário era invadido por atores, músicos, maestros, dançarinos, escritores, poetas, empresários... enfim por aqueles, artistas ou não, que dependiam, para viver, de subvenções municipais.
Então a reunião festiva se prolongava além do espetáculo.
Aquela “farra” cultural, que já durava vários anos, estava minando minha atividade profissional.
Afinal, morando no Brooklin, eu acordava todos os dias às cinco horas da manhã para, às seis, pegar o ônibus da empresa, que passava pela avenida Santo Amaro.
Depois, oito ou dez horas de trabalho duro.
Reservei os sábados, domingos e feriados para dormir até mais tarde.
Então, num ato de inaudita crueldade para com o genro, meu sogro-Secretário promoveu e assinou contrato com emissora de radio e televisão e certa fábrica de automóveis, criando os Concertos Matinais, que transformaram minhas manhãs de domingo, a partir de maio de mil novecentos e cinqüenta e nove, numa espécie de gincana com a finalidade de afastar todos os fatores que pudessem impedir nossa ida ao Municipal, onde o confortável camarote do Secretário esperava pela família.
E nossa ausência não era permitida.
Da primeira apresentação até a última, quatro anos depois, foram quase duzentos e cinqüenta audições dominicais, todas elas transmitidas pelas Emissoras Associadas para o Brasil e para o mundo, através do radio e da TV.
Extraordinário trabalho realizado pela Orquestra Sinfônica Municipal, o Coral Municipal, e os cantores-solistas que ajudaram a gravar o até então inédito em terras brasileiras poema-sinfônico “Colombo”, do Carlos Gomes. E também pelos maestros Armando Belardi, Camargo Guarnieri, Edoardo de Guarnieri, Souza Lima e Nelson Freire.
Terminados os Concertos Matinais, ganhei da empresa patrocinadora um álbum com três discos LP, onde estavam gravados os melhores momentos daquela iniciativa tão brilhante.
Ainda em 1957 e maestro Heitor Villa Lobos recebeu o título de cidadão paulistano.
Tivemos a honra de assistir, ao lado do compositor, no Teatro Municipal de São Paulo, a apresentação da sua Décima Sinfonia sob a regência do maestro Souza Lima.
Privilégio para os genros de sogros-Secretários!
Em 7 de abril de 1961, acabou o governo do Adhemar de Barros.
Meu sogro apanhou o chapéu e foi para casa.
Acabaram-se as delícias do camarote do Secretário, as entradas grátis no Municipal...
Dez anos depois foi a minha vez de brincar de Secretário.
Porém o ramo era outro. O único convite que recebemos, eu e minha mulher, foi para assistirmos, no Teatro Municipal, uma apresentação de orquestra de tangos que não tocava tangos.
Fomos, em memória dos velhos tempos, e também porque ninguém aceitou o repasse dos convites, mesmo de graça.
Percebemos que alguma coisa tinha sido mal avaliada, pois havia gente sentada até nos corredores.
E foi um deslumbramento.
Saímos do Teatro Municipal em êxtase, minha mulher gritando, como louca, os versos da ...“Balada para um loco”!
Então procuramos as casas de discos ainda abertas, e compramos tudo o que havia de Astor Piazzola e de Amelita Baltar.
Com uma saudade danada dos tempos do sogro-Secretário.
Que deve estar no céu, ensinando música erudita para os anjos, desconsolado por não ter sido dele a idéia de levar a Elizeth Cardoso, que vinha do quinto LP da série Meiga Elizeth, para interpretar as Bachianas Brasileiras número 5, do Heitor Villa Lobos numa soirée do Teatro Municipal de São Paulo que entrou para a história.
Na década de oitenta eu prestava consultoria para uma empresa construtora.
E, numa sexta-feira de chopes descobri que um dos engenheiros que trabalhavam para a firma, também era um dos responsáveis pela grande reforma que se faria no Teatro Municipal.
Então eu falei dos subterrâneos do Teatro, que eu havia percorrido em certa ocasião.
Na segunda feira o engenheiro estava eufórico.
Havia entrado nos corredores enterrados e o cenário despertou-lhe a criatividade.
Tempos depois me disse que um grupo de arquitetos trabalhava ali, e os subterrâneos seriam aproveitados e entregues ao público.
Confesso que não voltei ao Municipal para ver o resultado.
De qualquer maneira, o ano que vem o Teatro Municipal faz cem anos.
Parabéns para ele!
Tenho certeza que a atual reforma ficará pronta para a festa de aniversário!
Larry Coutinho ( foto e texto)
E,por falar em pizza...Crônicas da cidade plural
Eu acho que as Colas chegaram antes.
Sei que Getúlio Vargas assinou o decreto em 1939 modificando a permissão do uso de aditivos químicos em refrigerantes
Para mim a bebida surgiu num belo dia de sol, hora do recreio, quando uma multidão de pequenos seres confusos corria de um lado para outro no grande pátio do Dante Alighieri e foi organizada rapidamente em longas filas à espera cada um da sua pequena garrafa (quente) do refresco desconhecido.
De graça!
Final dos anos quarenta, com certeza.
E o irreverente João Cardoso proclamando em tom canalha:
-Uma Cola bem gelada .... faz efeito na privada!
Quanto a pizza, recorro ao Frederico Branco, em seu Postais Paulistas.
Para ele, não interessa como e quando a pizza chegou a São Paulo.
Bairrista, fixa-se na data em que conheceu a redonda (que hoje também pode ser quadrada) no espigão da avenida Paulista: 1943.
Mais exatamente na praça Oswaldo Cruz, no mesmo lugar onde, anos depois, foi construída a já falecida loja da Sears Roebuck e agita, hoje, um Shopping muito freqüentado.
Pois ali, uma faixa alardeava a inauguração da Pizzeria Surpreza!
E, na mesa que ocupou, viu-se diante do aroma “feito de azeite de oliveira, massa bem assada, queijo fundido no forno, orégano e uma ameaça de alho”.
A pizza de mozzarella! É claro, acompanhada por algumas garrafas de Hamburguesa gelada.
Entre as três marcas que poderia escolher: Hamburguesa, Brahma ou a marca barbante ... a que amarrava a rolha com barbante para não explodir, então já domada pela chapinha de metal.
Dali para o Paulino escorregar Pamplona abaixo, foi um minuto. Precisamente três anos.
Meu pai, amazonense afeito à culinária do norte, encantou-se com o aliche do Paulino.
Era aliche ou mozzarella. Só.
Eu detestava aquele peixinho espinhento, salgado e estranho, artisticamente disposto sobre a camada fina de molho de tomate.
Minha mãe, quando era ela a pedir, recomendava meio-a-meio, tímida demais para pedir: mezzo-a-mezzo.
Porém meu pai comandava quase sempre, e então era só aliche.
Cresci, casei e mudei para o Brooklin.
Onde descobri a pizzeria Esperanza e a pizza Margarita, uma sublimação do pesto, acrescentando aos aromas lembrados pelo Frederico Branco o suave olor do manjericão.
Uma sala quadrada, na avenida Morumbi, não muito grande, com seis ou sete pequenas mesas, um balcão e uma minúscula cozinha.
Parede de vidro fosco separava o salão da calçada.
E, maravilha das maravilhas, um pão de lingüiça divino!
O pão sempre chegava antes da pizza, que aceitávamos já sem fome, ao contemplar os maravilhoso “triângulos dourados” migrarem para os nossos pratos.
Os convivas variavam, porém a velha piada era sempre a mesma:
- Garçom, não corte em oito pedaços. Corte em seis, porque já estamos sem fome!
E tome azeite por cima!
Tempos depois minha filha mais velha casou com um carioca.
Uma bela noite, a família inteira na pizzaria!
Então, o máximo da heresia, ação que condenava imediatamente para a fogueira sem passar pelo Santo Oficio nem nada: o novo membro da família, carioca de nascimento, pediu o Ketchup, e derramou abundantemente sobre a Margarita!
Meu neto mais velho nasceu e cresceu praticamente sem conhecer o pai. Um ou outro telefonema e olhe lá.
Casamento desfeito, o ex-genro voltou para o Rio de Janeiro, e não viu o filho crescer.
Pois bem.
Noutra bela noite, bem distante no tempo da primeira, reunidos em família, meu neto, com oito anos de idade, ao ser servido do seu triângulo dourado pediu... o Ketchup! Que derramou abundantemente sobre a Margarita. Enormes e gordas manchas vermelhas sobre o dourado da pizza. Diante do profundo silêncio familial!
Freud explica?
O resto a respeito das pizzas todo mundo sabe mais e muito melhor do que eu.
Larry Coutinho
Sei que Getúlio Vargas assinou o decreto em 1939 modificando a permissão do uso de aditivos químicos em refrigerantes
Para mim a bebida surgiu num belo dia de sol, hora do recreio, quando uma multidão de pequenos seres confusos corria de um lado para outro no grande pátio do Dante Alighieri e foi organizada rapidamente em longas filas à espera cada um da sua pequena garrafa (quente) do refresco desconhecido.
De graça!
Final dos anos quarenta, com certeza.
E o irreverente João Cardoso proclamando em tom canalha:
-Uma Cola bem gelada .... faz efeito na privada!
Quanto a pizza, recorro ao Frederico Branco, em seu Postais Paulistas.
Para ele, não interessa como e quando a pizza chegou a São Paulo.
Bairrista, fixa-se na data em que conheceu a redonda (que hoje também pode ser quadrada) no espigão da avenida Paulista: 1943.
Mais exatamente na praça Oswaldo Cruz, no mesmo lugar onde, anos depois, foi construída a já falecida loja da Sears Roebuck e agita, hoje, um Shopping muito freqüentado.
Pois ali, uma faixa alardeava a inauguração da Pizzeria Surpreza!
E, na mesa que ocupou, viu-se diante do aroma “feito de azeite de oliveira, massa bem assada, queijo fundido no forno, orégano e uma ameaça de alho”.
A pizza de mozzarella! É claro, acompanhada por algumas garrafas de Hamburguesa gelada.
Entre as três marcas que poderia escolher: Hamburguesa, Brahma ou a marca barbante ... a que amarrava a rolha com barbante para não explodir, então já domada pela chapinha de metal.
Dali para o Paulino escorregar Pamplona abaixo, foi um minuto. Precisamente três anos.
Meu pai, amazonense afeito à culinária do norte, encantou-se com o aliche do Paulino.
Era aliche ou mozzarella. Só.
Eu detestava aquele peixinho espinhento, salgado e estranho, artisticamente disposto sobre a camada fina de molho de tomate.
Minha mãe, quando era ela a pedir, recomendava meio-a-meio, tímida demais para pedir: mezzo-a-mezzo.
Porém meu pai comandava quase sempre, e então era só aliche.
Cresci, casei e mudei para o Brooklin.
Onde descobri a pizzeria Esperanza e a pizza Margarita, uma sublimação do pesto, acrescentando aos aromas lembrados pelo Frederico Branco o suave olor do manjericão.
Uma sala quadrada, na avenida Morumbi, não muito grande, com seis ou sete pequenas mesas, um balcão e uma minúscula cozinha.
Parede de vidro fosco separava o salão da calçada.
E, maravilha das maravilhas, um pão de lingüiça divino!
O pão sempre chegava antes da pizza, que aceitávamos já sem fome, ao contemplar os maravilhoso “triângulos dourados” migrarem para os nossos pratos.
Os convivas variavam, porém a velha piada era sempre a mesma:
- Garçom, não corte em oito pedaços. Corte em seis, porque já estamos sem fome!
E tome azeite por cima!
Tempos depois minha filha mais velha casou com um carioca.
Uma bela noite, a família inteira na pizzaria!
Então, o máximo da heresia, ação que condenava imediatamente para a fogueira sem passar pelo Santo Oficio nem nada: o novo membro da família, carioca de nascimento, pediu o Ketchup, e derramou abundantemente sobre a Margarita!
Meu neto mais velho nasceu e cresceu praticamente sem conhecer o pai. Um ou outro telefonema e olhe lá.
Casamento desfeito, o ex-genro voltou para o Rio de Janeiro, e não viu o filho crescer.
Pois bem.
Noutra bela noite, bem distante no tempo da primeira, reunidos em família, meu neto, com oito anos de idade, ao ser servido do seu triângulo dourado pediu... o Ketchup! Que derramou abundantemente sobre a Margarita. Enormes e gordas manchas vermelhas sobre o dourado da pizza. Diante do profundo silêncio familial!
Freud explica?
O resto a respeito das pizzas todo mundo sabe mais e muito melhor do que eu.
Larry Coutinho
sábado, 24 de julho de 2010
A rua Direita e vizinhanças ( Othon Palace Hotel) - Crônicas da cidade plural

A rua Direita era área dos negros, nas noites de domingos e feriados.
Durante os dias de semana desenvolvia um comércio popular, nas Lojas Americanas, que varavam o quarteirão e tinha duas entradas, uma em cada rua.
Na esquina da praça do Patriarca, a Exposição, uma loja que proclamava:
“- Basta ser um rapaz direito para ter crédito na Exposição”.
Em outra esquina da mesma praça, desta vez com a rua São Bento, ficava a Casa Fretin, com seu minúsculo elevador de portas pantográficas.
Vendia óculos, próteses, e fundas para hérnias, entre outros estranhos artigos.
Na praça do Patriarca, a Casa São Nicolau onde, no Natal, eu esfregava o nariz nas vitrines, correndo de uma ilusão para outra, feita brinquedo...
Mais adiante, na São Bento, a Botica Ao Veado de Ouro, cuja principal atração era a escultura dourada de um veado.
Aviavam as receitas dos médicos antigos, daqueles que não gostavam de prescrever remédios industrializados, que se compravam prontos nas farmácias.
Na Libero Badaró, também esquina com a praça do Patriarca, o novo hotel Othon, onde os novos casais passavam a noite da lua de mel.
Aliás, um jovem casal amigo ocupou um dos quartos do hotel, na sua primeira noite.
A noivinha, nervosa - época em que as noivinhas ficavam nervosas - ao usar o banheiro, notou a falta do papel higiênico.
Usou o telefone para reclamar com a portaria:
- Por favor, meu banheiro não está completo!
Três minutos depois bateram à porta.
Um rapaz uniformizado trazendo... um secador de cabelos!
Larry Coutinho ( foto e texto)
Relógio e o chá no Mappin - Crônicas da cidade plural
(Foto em junho de 2010)Na década de cinqüenta, São Paulo completou quatrocentos anos.
Não existiam ainda os shopping's e ao nosso alcance havia apenas um supermercado, o Peg-Pag, na praça Gastão Liberal Pinto, encruzilhada tripla, ponto de convergência da avenida Brigadeiro Luís Antônio, São Gabriel e avenida Santo Amaro.
Todas as lojas chamadas finas, enfim, toda a vida elegante ficava no centro velho.
A Biblioteca Municipal, as livrarias, o Mappin da praça Ramos de Azevedo, onde as senhoras tomavam chá no salão do quarto ou quinto andar...
Às vezes um ou outro homem bem vestido e cheiroso costumava freqüentar o salão, e era sempre alvo de olhadelas e de cochichos.
A causadora da invasão masculina (sempre havia uma) não conseguia escapar dos mexericos.
Na esquina da Xavier de Toledo, o relógio do Mappin.
Por ele marquei muitos encontros em minha vida.
Ainda está lá, e não funciona mais.
Antes, o Mappin ficava na Praça do Patriarca.
E a Livraria Jaraguá, na Marconi, também mantinha uma sala de chá, nos fundos.
Larry Coutinho( foto e texto)
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Escola Normal Caetano de Campos - Crônicas da Cidade Plural
( primeira escola normal do Estado de São Paulo)
Nesse prédio projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo foram formadas as professorinhas que modificaram todo o sistema educacional brasileiro. Queridas e respeitadas pelo povo receberam uma homenagem musical, na voz de Francisco Alves, que foi grande sucesso na época:
"Vestida de azul e branco
Trazendo um sorriso franco
No rostinho encantador
Minha linda normalista
Rapidamente conquista
Meu coração sem amor"
Larry Coutinho ( texto e foto)
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