quinta-feira, 28 de julho de 2011

A poesia e a fé nas devoções Marianas - Crônicas da cidade plural.

Festa da Nossa Senhora da Achiropita ( clique na foto p/ ampliar)





Que Nossa Senhora é uma só não há dúvida.
Entretanto no bairro do Bexiga, em São Paulo, os cravos vermelhos e voadores que cobrem a rua Treze de Maio durante os meses de agosto reforçam a idéia de certa exclusividade religiosa presente em alguns povos cristãos.
Pois se trata de uma Nossa Senhora especial: a Achiropita.
Cuja devoção é comemorada no dia 15 de agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora.
Maria Achiropita: a-kirós-pita, ou seja, não pintada por mãos humanas. Sabendo que kirós em grego significa mão, suponho ser este o idioma revelado por aquela frase.
Embora a origem mais remota desta Nossa Senhora venha do oceano.
A promessa de construir um santuário em Rossano Cálabro, na Calábria, surgiu logo após tempestade no mar.
No ano de 580 o capitão Maurício foi apanhado com seu primitivo veleiro por uma grande tempestade.
Naqueles tempos pretéritos a humanidade ainda aprendia a navegar e quando os elementos em fúria assumiam o controle das embarcações os capitães e os marinheiros costumavam passar o comando para os Santos ou para Nossa Senhora.
O próprio Cristóvão Colombo, perto de novecentos anos depois, quando navegava em águas do Atlântico, rezou e enfiou a mão em um saco contendo feijões marcados, para sortear quem dentre os tripulantes levaria velas à Virgem Maria, caso escapassem do mar em fúria.
Para quem gosta de saber os finais, revelo que o sorteado foi o próprio Colombo.
Porém, em 580, o capitão Maurício conseguiu salvar o barco, e sabendo que não tinham sido os ventos que levaram a embarcação para aquele porto seguro, mas sim a Virgem Maria, construiu ali um santuário.
O artista contratado para pintar a imagem de Maria não conseguia entender certo acontecimento coberto do mais profundo mistério: tudo o que ele pintava durante o dia era apagado no silêncio da noite.
Finalmente desistiu. A Igreja inacabada foi fechada e colocado um vigia.
Tarde da noite uma mulher carregando no colo uma criança pediu para entrar e rezar.
O vigia franqueou a passagem.
Na manhã seguinte, ao abrir a igreja, o vigia viu as imagens da mulher e do menino estampadas no lugar da pintura.
Certamente pintada por mãos não-humanas: a-kirós-pita.
Essas histórias e lendas construíram devoções Marianas diversas.
Nossa Senhora da Aparecida, no Brasil, cuja imagem surgiu na rede de pescadores; Nossa Senhora do Guadalupe, revelada através da impressão mágica da imagem num poncho indígena; Nossa Senhora de Fátima, a das revelações às três crianças; Nossa Senhora de Lourdes, que apareceu numa gruta; Nuestra Señora del Cobre, em Cuba; La Virgen Nera dei Miraculi, na Basilicata; Nossa Senhora da Cabeça, na Espanha (já foi objeto de considerações neste Blogue); e inúmeras outras Nossas Senhoras existentes pelo mundo afora.
Maravilhosa demonstração da necessidade que as pessoas têm de acreditar em coisas mais confortadoras para a alma do que a própria realidade circundante.
Isto em literatura chegou a criar uma corrente literária: o idealismo.
E quando no final do ano de 2010 fotografei os preparativos feitos pela comunidade daquele bairro pobre da cidade de São Paulo para a glória e o bom desempenho da 84a. Festa da Nossa Senhora Achiropita, eu percebi o enorme trabalho que tudo aquilo exigia.
E, mais do que isso, quase pude pesar e tocar com as mãos a profunda fé que justificava aquelas doações pessoais tão significativas.
Então uma imagem borrada surgiu em minha mente, vinda do fundo dos tempos.
Eu era bem mais jovem e tentava percorrer a pé os quase duzentos quilômetros do Caminho do Sol.
Antes de começar a caminhada, passei dois ou três dias em Santana do Parnaíba.
Sem ter o que fazer procurei fotografar a cidade tão fotogênica.
Encontrava-me na igreja, pensando no que fotografar.
Na praça lá fora grupos de escolares passavam, barulhentos e alegres.
A nave estava deserta e algumas velas acesas enchiam o ar do cheiro de parafina queimada.
Entrou uma menina de seus treze anos, uniformizada e carregando uma pequena mochila.
Dirigiu-se para um altar lateral.
A imagem era a de Nossa Senhora das Dores.
E assim mesmo, em pé, ela começou a conversar com a Santa.
Sussurrava e não consegui entender o que dizia.
Entretanto estava tão absorta naquela comunhão de almas com a Virgem Maria que não me viu.
Nem mesmo quando fotografei a cena por diversas vezes.
Em determinado momento a menina começo a chorar, silenciosamente.
As lágrimas escorriam do rosto da jovem, magrinha e de expressão sofrida.
Ajoelhou, colocou o rosto entre as mãos e rezou.
Depois, terminada a reza, consultou o relógio de pulso, suspirou um desalento, levantou-se e deixou a igreja.
Com enorme dignidade.
Mais tarde, ao revelar o filme, verifiquei que as fotos eram magníficas. Talvez as melhores da minha vida. O rosto ansioso e de expressão dolorida, marcada por fios de lágrimas, suplicavam por um átimo que fosse de solidariedade.
Envergonhado com aquela quebra tão brutal da intimidade, coloquei as fotos em uma caixa e lá as esqueci, como deve ser.
E ali, no torvelinho dos preparativos para a festa da Achiropita, por entre panelas, caixas, volumes, carros e pequenos caminhões eu contemplei a comunidade ocupada, ouvi com atenção o burburinho, destaquei risos e xingamentos afetuosos ou irados, separei frases e de repente percebi que estava novamente penetrando na intimidade das pessoas, em algo mais profundo do que a própria paisagem mostrava.
Novamente envergonhado, guardei a câmara e fui almoçar numa pequena cantina.
Macarrão com bracholas.




Larry Coutinho

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Breve crônica do “ai!” desaparecido - Crônicas da cidade plural.

Na língua portuguesa o “ai” é uma interjeição que geralmente exprime lamento, dor, mas também pode expressar alegria, felicidade, excitação...
A interjeição não deve ser confundida com o advérbio “ai”, que serve para designar o lugar onde está a pessoa a quem se fala.
Por sua vez, o “ah” é outra interjeição com significado mais amplo, embora na mesma direção do “ai”: impaciência, compaixão, dor, pesar, ironia, assombro, alivio, duvida, desejo, admiração, alegria...
Ao saber pela pesquisadora Alicia Medeiros (el Flamengo, editorial Acento, Madrid) sobre as dimensões do “ay!” utilizado no canto flamengo da Andaluzia, comecei exercício mental de reconhecimento do uso da interjeição no cancioneiro popular brasileiro.
Eis, em tradução pobre e apressada, o que Alicia revela:
“Esse “ai!”, palavra espantada, desgarrada e rebelde que ainda não encontrou o grafismo exato, é na realidade a dimensão maiúscula do flamengo, donde brota a grandeza trágica de um povo que representa assim os pináculos da raiva e da ira. É o homem esfarrapado, destruído, a mão que não encontra um ombro amigo”.
Para quem não sabe, o flamengo é um gênero musical da Espanha. Mais do que da Espanha, da Andaluzia, provindo de raízes judias, árabes e ciganas.
Região sul do país por onde a cultura árabe passeou vitoriosa durante oito séculos e depois foi expulsa. Os remanescentes sofreram humilhações e pagaram caros impostos ao rei para manter os privilégios. Terras por onde os ciganos carregaram seu nomadismo trágico. Aldeias onde os judeus viveram o destino incerto dos povos oprimidos, forçados a adotarem a religião católica para não perecerem nas garras cruéis da Santa Inquisição.
Os cristão-novos...
E as três etnias adotaram como delas a copla andaluza, repleta de dores e de queixas, o canto flamengo, onde o “ay!” inicia a canção ou surge espontaneamente em intervalos aleatórios.
Como disse Rafael Cansinos: “- A copla (andaluza) é um canto dos parias que alguma vez foram príncipes e continuam se sentindo como tais”.
E continua Alicia Mederos: “ É por isso que a letra fica diluída nas queixas do cantor, e que chega até mesmo ininteligível aos ouvidos de quem a escuta, de quem a sente. Não acredite que a letra da canção não tem importância ou que ela ocupa lugar secundário. Pelo contrário, essa letra ininteligível é um destroço, uma parte destacada da angustia do próprio cantor. É a verdade que levanta a canção (...)”.
No século XIX, quando espanhois migraram para a Argentina, levaram com eles esse sentido de pena, queixa, e angustia existentes no cancioneiro que seguia junto.
Imigrantes de Almeria, Cádiz, Cordoba, Granada, Huelva, Málaga e Sevilha, enfim de toda a Andaluzia, que ajudaram a dar ao tango-canção platino todo o sentido trágico do “ay!” flamengo.
Desta vez na nostalgia dos imigrantes obrigados a viver longe da terra natal, dos amores desfeitos, das angustias existenciais, das traições conjugais...
Em 1985, estampada no jornal “La Razón”, numa entrevista concedida pelo escritor argentino Borges a Armando Otamendi, chamada “Borges y los juegos por dinero”, encontrei o seguinte:
“O tango não me agrada, pois é uma decadência da milonga. A milonga, ao contrário, é um desafio, enquanto o tango é sentimental, e eu detesto o sentimentalismo. Como dizem no Brasil, o tango é o lamento dos cornudos.”
Naquele recorte antigo pensei ter encontrado o lugar do cancioneiro mundial onde se escondia o “ay!” andaluz.
O argumento pareceu-me forte e definitivo.
Marquei o texto e fiquei esperando alguém com quem pudesse comentar o assunto.
Porém coloquei o jornal sobre uma estante do meu escritório.
Exatamente a que abriga todos os discos brasileiros de samba-canção, da década de 50.
Relembrei algumas das letras, revi mentalmente a obra de Lupicínio Rodrigues: “Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram...”, murmurei algumas das minhas canções favoritas, e cheguei a Dolores Duran.
E o “ai!” surgiu, em todo o seu esplendor.
“Ternura Antiga”, Dolores Duran e Ribamar.
“Ai, a rua escura, o vento frio / esta saudade, este vazio / esta vontade de chorar.../ Ai, esta amargura, esta agonia.../ esta ternura tão antiga / e o desencanto de esperar.../ Sim, eu não te amo por que quero... / Ai, se eu pudesse esqueceria / vivo, e vivo só por que te espero / Ai, esta amargura, esta agonia...”
“Leva-me Contigo”, Dolores Duran.
“Ai, leva-me contigo / pela noite eterna / da tua amargura/ deixa que eu te ofereça / todo este carinho / toda essa ternura...(...) /Ai, leva-me contigo / e perde a minha vida / quando te perderes (...)”
“Solidão” (samba-canção), Dolores Duran.
“Ai, a solidão vai acabar comigo / eu já não sei o que faço,/ o que digo,/ vivendo na esperança de encontrar / um dia um amor sem sofrimento (...) ./Ai, a solidão vai acabar comigo”.
“Por Causa de Você” (samba-canção), Antônio Carlos Jobim e Dolores Duran.
“Ai, você está vendo só / do jeito que fiquei, e que tudo ficou / uma tristeza tão grande / nas coisas mais simples / que você tocou. (...)”
Finalmente um baiano genial, saindo dos temas do amor desfeito e seguindo para a saudade do lugar de origem:
“Saudade da Bahia” (samba), Dorival Caymmi.
“Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia !/ Ai, se escutasse o que mamãe dizia:/ Bem, não vá deixar a sua mãe aflita / a gente faz o que o coração dita,/ mas este mundo é feito de maldade, ilusão./Ai, se eu escutasse hoje não sofria,/ Ai, esta saudade dentro do meu peito!/ Ai, se ter saudade é ter algum defeito,/ eu pelo menos mereço o direito / de ter alguém com quem eu possa me confessar! (...)”.
Eis o “ay!” andaluz traduzido, torneado, adocicado, individualizado como deve ser, e que continuou a revelar a crise existencial profunda, a exclusão e o sofrimento.
E a saudade da terra natal!
Mais adiante encontrei a interjeição “ai!” modificado em “ah!”, e o tema alterado transforma a sensação de angustia e de dor em esperança e o desejo de alcançar o impossível:
“Eu e a brisa”, Johnny Alf
“Ah! Se a juventude que essa brisa canta / ficasse aqui comigo mais um pouco / eu poderia esquecer a dor de ser tão só pra ser um sonho (...)”.
Ao final, penso em duas possibilidades para tentar explicar o desaparecimento do “ai!” das canções: ou a humanidade não sofre mais, no que eu acho difícil de acreditar, ou o pudor e a necessidade de ocultar as fraquezas obrigou o homem moderno a esconder tudo aquilo que, através dos séculos, a humanidade canora revelou tão verdadeiramente através das letras, nas canções.

Larry Coutinho